fevereiro 22nd in Literatura by cssoares .

A hora e a vez da hiperficção

O romance “Santos Dumont Numero 8″ foi publicado originalmente em papel, mas com vocação de hiperficção. Em sua versão 2.0, que lançaremos ainda este ano, as intervenções do leitor serão incentivadas ainda mais…

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Há poucos dias, recebi o e-mail de uma leitora que questionava: Li o Santos Dumont Numero 8, mas não entendi uma coisa: o livro tem um final? Minha resposta, compreendo, não pareceu nem um pouco ortodoxa (jamais o pretendeu ser): Santos Dumont Número 8, não tem um final “convencional”:  é fragmentado, “recorrente” (às vezes, loop, outras, lista encadeada) e hipertextual. Acima de tudo, hipertextual. Mas, deixe-me tentar explicar isso um pouco melhor.

Santos Dumont Número 8, lembro, foi publicado originalmente no ano de 2006 e em papel, mas com uma inerente vocação para a hiperficção. O romance é dividido em duas partes: a primeira, a que abre o livro, pode ser identificada pelos títulos “O primeiro cubo” ou “Ver para crer” ou ainda “O fim do Santos Dumont Número 8”. Trata-se de uma representação narrativa de um cubo de Rubik. Sua leitura poderá ser linear. Já a segunda, o “Segundo cubo”,  “Crer para ver”, ou ainda, “Dois elevado ao cubo”, ao qual se segue, anexado, o subtítulo “hiper-romance”, representa (metaforicamente) um Cubo de Necker. Aqui, a leitura proposta é a hipertextual.

Cover of

Cover of S/Z: An Essay

Este segundo cubo (não por acaso) traz como epígrafe algumas palavras de Roland Barthes, retiradas de seu ensaio S/Z (uma análise estruturalista de Sarrasine, de Balzac), e, penso, bem representará uma das premissas do SD8:

A releitura é aqui proposta, pois apenas ela é capaz de salvar o texto da repetição (aqueles que não relêem estão condenados a ler em tudo a mesma história), de multiplicá-lo em sua diversidade e em seu plural: a releitura arranca o texto da cronologia interna (“tal coisa acontece antes ou depois daquela”) e reencontra um tempo mítico…

Uma das definições da hiperficção diz que ela se trata de uma “narrativa desenvolvida segundo uma estrutura em labirinto, assente na noção de hipertexto, ou texto a três dimensões no hiperespaço, em que a intervenção do leitor vai determinar um percurso de leitura único que não esgota a totalidade dos percursos possíveis no campo de leitura”. A hiperficção nos mostra que romances podem ser apresentados de diferentes formas, interativas e dinâmicas.

Imagino que a tão antecipada morte do romance não acontecerá mesmo no momento em que absorve em suas linhas elementos multimídias e que seus autores passam a considerar sua leitura, interativa, através de dispositivos eletrônicos e móveis como celulares, ereaders, netbooks, notebooks, etc. Mas, em seu propósito artístico, inevitavelmente, esse novo romance, pós-moderno, se tornará cada vez mais “reversível” (no sentido dado pelo professor Miorad Pavitch (autor do romance enciclopédia Dicionário Kazar, versões masculina e feminina), uma experiência individualizada, um fluxo personalizável. Mas, isso, penso, não se trata exatamente de uma novidade.

A tradição do romance (e da poesia) hipertexto (e nela, se me permitem, gostaria de também incluiri o Santos Dumont Número 8, pois não se trata de um monólogo) é cervantina, remonta ao “engenhoso fidalgo de La Mancha” do espanhol Cervantes, passando (e deles absorvendo importantes características) por Laurence Sterne, Vladimir Nabokov, James Joyce, Raymond Queneau, Julio Cortázar, Milorad Pavitch, entre outros.

A tecnologia digital, que namora a literatura já faz tempo, possibilita o diálogo entre autor, leitor e história. Leitor torna-se coautor. Há décadas, autores consideram a tecnologia digital no desenvolvimento de suas obras. Em 1987, Afternoon, de Michael Joyce foi o primeiro romance publicado em disquete. No Brasil, O Brasileiro Voador, de Marcio Souza, foi o primeiro romance a ser entregue em disquete no depósito legal da Biblioteca Nacional.

Revista Veja On-line

SD8 na Revista Veja On-line

Mais recentemente, o Santos Dumont Número 8 , como noticiado pelo Jornal Público, de Portugal, transformou-se na “na primeira experiência de twitterização de um romance brasileiro”, fato também reconhecido pela Revista Veja e pelo portal G1, entre outros.

A hiperficção possibilita que escritores e leitores prestem atenção na prosa, mas também na estrutura da narrativa, pois ela é desconstruída e oferecida no conjunto, mas também em suas partes integrantes, aquelas que, muitas vezes, permanecem escondidas sob as camadas da história.

Mas, como é que se resolve o conflito gerado pelo desejo do leitor por coerência e encerramento (como na pergunta inicial da leitora do Santos Dumont Número 8): afinal de contas o romance que leio terá um final?


O que é o @sd8?

No romance Santos Dumont Número 8, que pode ser lido de várias formas, não existe uma única saída ou entrada no sentido tradicional dos termos, como, aliás, a própria Nota do Autor que precede o romance antecipa:

Este livro é um quebra-cabeça composto em sua primeira parte por 80 capítulos e em sua segunda parte por mais 86. Esses capítulos tendem a se interligar de forma que qualquer um deles poderá ser movimentado, girado, misturado sem que o livro se desmonte... (mais em Nota do autor)

Este é grande desafio dos novos escritores que consideram criar hiperficções e, mais especificamente, utilizar as redes sociais como plataforma para contar histórias: criar narrativas móveis que possam sofrer “intervenções” do leitor, mas sem se desintegrar diante de seus olhos (e de sua falta de paciência). O hipertexto é um ambiente novo para a literatura, requer uma nova postura diante dele, pois é apropriado a essas possíveis intervenções coautorais do leitor.

São essas intervenções do leitor que pretendo incentivar ainda mais com a versão 2.0 do romance Santos Dumont Numero 8, um híbrido de livro impresso, redes sociais e aplicações on-line (incluindo celulares), que lançaremos ainda este ano, construído com base nas experiências apreendidas da publicação do romance no Twitter, integrado a diversas redes sociais.

São desafios antigos (como o da continuidade, corência, fechamento, etc), reconheço, mas o hipertexto nos oferece novas e estimulantes soluções. Hoje, um texto literário não precisa estar exclusivamente na forma de um livro (mesmo quando impresso, apesar das inerentes limitações do meio). Não linear e não cronológica, a hiperficção aproxima-se da literatura oral: não haverá inicio ou final convencionais e o texto está em mutação perpétua, como, afinal de contas, nós mesmos, seres humanos, estamos. Inclusive, no que diz respeito à nossa relação com a palavra escrita.

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cssoares

C. S. Soares é autor do romance Santos Dumont Número 8 e editor do Pontolit.

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