Remix literário: escrevo, logo plagio? (*)
Plágio ou Remix? Esse parece mesmo ser o tema da semana no meio literário…
Duas histórias publicadas recentemente pelo New York Times me parecem (e penso que vocês haverão de concordar) bastante ilustrativas do “espírito” de nosso tempo e poderiam, até, ser consideradas exemplos lapidares do poder da internet no que diz respeito à descentralização da informação (e das consequência, para o bem e para o mal, dessa descentralização). Ambas as histórias giram em torno de um mesmo tema: o plágio.
A primeira das histórias nos fala da jovem escritora Helene Hegemann, cujo romance de estreia, Axolotl Roadkill, é sucesso de vendas na Alemanha a despeito das contundentes críticas recebidas de ser plágio de um romance, menos conhecido, intitulado Strobo, assinado pelo pseudônimo Airen. Uma das páginas do livro de Hegemann, afirma o Times, copia uma página inteira do romance de Airen com poucas alterações.
Ainda segundo o Times, um dos personagens do romance de Hegemann afirma categoricamente (encontraremos na assertiva doses de cinismo ou de destino?) “Berlin is here to mix everything with everything”. Entretanto, a frase (que é forte e poderia servir de epígrafe para a polêmica) teria sido escrita originalmente por Airen (mas, quem o poderá afirmar com tal convicção?) em seu blog.
Depois de Ms. Hegemann, ainda sobre o assunto plágio, teremos o caso (recorrente) de J. K. Rowling. A acusação da vez é de que Harry Potter e o cálice de fogo, o quarto romance da série criada pela autora inglesa, seria plágio de The Adventures of Willy the Wizard, de Adrian Jacobs, morto em 1997. A autora e sua editora, a Bloomsbury Publishing, desmentem a acusação.
Diga-se de passagem, o próprio The New York Times, há poucos dias, também foi acusado de plágio: um de seus jornalistas, Zachery Kouwe, teria usado “inapropriadamente expressões e passagens publicadas por outras organizações”, entre elas, o Wall Street Journal. O jornalista pediu demissão.
Lembro também que há poucos meses, Waldo Jaquith do Virginia Quarterly Review (VGR), jornal de resenhas literárias associado à Universidade de Virginia, havia observado semelhanças entre passagens do livro Free, de Chris Anderson, editor da Wired magazine, e outras fontes, estre elas a Wikipedia.
Quero me ater a um aspecto importante e inerente aos livros e jornais em ambiente on-line: a enorme facilidade de aplicação dos recursos de recorte, copia e cola ao conteúdo digital. A facilidade proporcionada pela intermediação do software pode, às vezes, atrapalhar se usada sem critério. É importante lembrar que o desenvolvimento de software que, como muitos, considerarei técnica e arte (o slogan do gerenciador de blogs Wordpress é preciso: “code is poetry”) é baseado na reutilização de componentes, o que não poderia ser definido como plágio (excluídos os casos regidos por patentes, claro).
Mas, o que software tem a ver com literatura? Eu diria que muito, meus caros, pois ambos, que consistiam em trabalho essencialmente solitário, autoral, hoje, são cada vez mais potencializados pela inteligência coletiva. O software, por exemplo, já conseguiu atingir um grau maior de complexidade, ubiquidade e relevância em nossa sociedade, bastando para isso considerarmos o mundo interconectado e de interfaces gráficas em que vivemos.
A mudanças propostas pela coletividade sem fronteiras da internet (sei que já não é bem assim, mas, a meu ver, deveria continuar sendo) incluirão a discussão ativa sobre o copyright, o que remontará ao paradigma da “orientação a objeto”, que há décadas influencia o desenvolvimento de software. Música, vídeo e, agora, jornais e livros, em ambiente on-line, também não deixam de ser software.
Dito isto, passemos a um segundo aspecto mais específico: desde o seu advento, livros conversam com livros. Desta forma, o que deveria ser considerado plágio, então?
Capítulos inteiros de Rayuela (clássico hipertexto do argentigo Julio Cortázar) são provenientes de livros de outros autores. Páginas e mais páginas de jornais e livros foram “remixadas” por autores tão diferentes entre si quanto Vladimir Nabokov, John dos Passos, Machado de Assis e William Burroughs (em algumas delas, não em todas, encontraremos a citação das fontes).Em outra esfera, o que dizer da readaptação, “sequels” e “prequels” sugeridas para Holmes, Drácula, Oz e até nosso Dom Casmurro, entre tantos outros? Seus autores serão plagiadores ou apenas prestam devotada homenagens aos seus escritores prediletos?
O movimento das fanfics, muito popular entre os jovens, pode servir de parâmetro para entendermos o que vem por aí. O conceito de copyright certamente sofrerá mudanças, porque a cabeça das pessoas mudam. O que a internet potencializa na verdade não é muito diferente do que sempre soubemos: autores dialogam entre si, livros conversam com outros livros.
Antes, isolados, soterrados em poeiras de antigas bibliotecas, era mais difícil notarmos esse diálogo importante e essencial. Como éramos surdos a esses diálogos, não poucas vezes, confundimos nossa própria ignorância com a “genialidade” de certos autores. Claro que elas existem, genialidade e inovação, mas, antes na entonação do que a gênese de algo inteiramente novo.
Obra de John Wilkins, autor que mereceu um ensaio de Jorge Luis Borges
Leiamos Borges, mas, para entendê-lo, nos deixemos de resgatar Robert Burton, Thomas Browne e John Wilkins. Antes, isso era praticamente impossível para nós que não moramos em Bibliotecas. Hoje, nos bastará uma consulta ao Google Books. Todos os textos do mundo, com Google ou sem Google, tendem a estar disponíveis em um imenso repositório de dados e informações acessíveis através mecanismos de buscas e filtros. A criatividade (de leitores e escritores) estará no saber usar tais recursos, agregando a essa experiência o espírito de nosso tempo.
(*) Disclaimer: O título deste artigo é remixado (?) do subtítulo de um outro da PressEurop, que por sua vez, se escora no Cogito Ergo Sum que, apesar de comumente atribuido a Descartes, deveríamos saber que antes dele, já havia sido mencionado por Santo Agostinho, Platão, Aristóteles e Avicena.


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