fevereiro 18th in Literatura by cssoares .

Nabokov póstumo

O manuscrito a partir do qual O original de Laura foi impresso com fidelidade é composto de 138 fichas catalográficas…

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O manuscrito a partir do qual O original de Laura foi impresso com fidelidade é composto de 138 fichas catalográficas anotadas por Vladimir Nabokov durante os últimos três anos de sua vida – a caligrafia é miúda, cuidadosa e clara. No labirinto de impasses e bifurcações, aleias tão entrelaçadas onde se perder é fácil, um dos mecanismos de enredo que conduzem de modo preciso à participação imaginativa do leitor do metarromance é a invenção auspiciosa de outro, Minha Laura, um best seller descrito como um “roman à clef cuja clef perdeu-se para sempre”.

Haverá quem reconheça no parágrafo anterior, não por acaso, ecos do conto de fadas recursivo e hipertextual Fogo pálido (1962). Em uma de suas páginas está escrito: “(…) Lembro-me bem de tê-lo visto de minha varanda, numa manhã brilhante, queimando uma grossa pilha de fichas no fogo pálido do incinerador”. As similaridades e coincidências entre a realidade e a ficção são várias. Escrever, concluirão, assemelha-se muitas vezes à arte da prestidigitação.

Muito se comentou sobre o último e infame desejo de Vladimir Nabokov: a destruição dos manuscritos de Laura caso morresse, como de fato morreu, antes de terminar o romance. A tarefa foi delegada a Vera, sua mulher, mas é pouco provável que Vladimir acreditasse que ela a cumprisse. Não cumpriu. A história, como uma lemniscata, sempre se repete: Nabokov, ele mesmo, aconselhado por Vera, uma ou duas vezes, desistira de queimar o manuscrito inacabado de Juanita Dark, que mais tarde, concluído, receberia o título definitivo de Lolita.

Entretanto, não foram os artifícios estilísticos ou a qualidade da escrita do romance em fragmentos que dividiu o mundo literário por mais de 30 anos, mas se o último – e desprezível – desejo de seu autor deveria ser respeitado. É a morte que estabelece e organiza o destino desse manuscrito e confere ao que acaba de ser pronunciado a repercussão grave dos mistérios.

Uma passagem do poeta inglês Brooke: “Depois de mortos, tocaremos, já que não temos mãos; e veremos, não mais cegos por nossos olhos”. Assim, leremos um manuscrito destruído, pois já não existe. São três os métodos básicos que um autor pode escolher para destruí-los: delegando, procrastinando, ou tornando-se o próprio executor de seu auto de fé particular. Para qualquer um deles haverá precedentes.

Em 1924, Franz Kafka morreu de tuberculose. Um grande e inédito espólio literário saiu postumamente, apesar de seu desejo de que tudo fosse destruído. Seis anos após a morte de Mark Twain, em 1910, publicou-se O estranho misterioso a partir da combinação de três versões diferentes e incompletas da história, na qual o autor trabalhara por 20 anos. Já nos primeiros anos do século 20, em seu sobrado da Rua Cosme Velho, 18, Machado de Assis, o Bruxo, usou seu caldeirão de bronze para queimar cartas e manuscritos.

Bruxos, feiticeiros, escritores – e advogados – sabem que o mundo das palavras é contínuo com o mundo das coisas, havendo comunicação entre ambos. Forçosamente, temos de admitir a possibilidade de por meio das palavras se provocarem alterações no mundo físico. Ainda assim, “anular, expungir, apagar, deletar, remover, eliminar, obliterar”, não foram suficientes para interromper a força do fluxo e a materialização de um romance sobre o qual poderíamos contar um pouco de história. É o que faremos.

Em dezembro de 1974, Nabokov estabeleceu em seu diário o primeiro título provisório de O original de Laura: Morrer é divertido. Em outubro de 1975, a suspeita de um câncer de próstata levou Nabokov à Clinique de Montchoisi, Lausanne, para uma operação. Era um adenoma benigno. Meses depois, Nabokov anunciou que voltava entusiasticamente para o vórtice do novo romance. No início de 1976 registrou em seu diário: “Novo romance com mais ou menos 54 cartões completados e copiados. Em quatro lotes de diferentes partes do romance”. O título definitivo é decidido em fevereiro: O original de Laura. Chegamos a 1977. Apesar das novas internações, o escritor continuou trabalhando, mas sua escrita torna-se instável e a concentração é fraca. Às 18h50 do dia 2 de julho, sucumbindo a uma bronquite congestiva, Nabokov emitiu um triplo suspiro convulsivo, seu coração silenciou, e ele estava morto.

A publicação de O original de Laura apresenta as marcações originais de Nabokov nas fichas escritas à mão. A ortografia incomum de algumas palavras e a pontuação foram mantidas. Uma introdução de Dmitri Nabokov, filho e executor do espólio literário de Nabokov, tenta justificar o romance, que apresenta um mundo imaginativo que não difere muito do real.

A lembrança de Flora, “uma beleza impaciente de 24 anos, de seios firmes que parecem 12 anos mais jovens”, parece querer exorcizar Lolita. Possui olhos azuis-escuros, muito juntos, e a boca cruel que “relembram fragmentos de seu passado, com detalhes perdidos ou colocados na ordem errada”. Não seriam tais fragmentos o registro preciso do próprio romance ao qual serve de personagem? Repete freudianamente, a partir dos 14 anos, o comportamento da mãe, madame Lanskaya, uma adorável bailarina e colecionadora de amantes que, aos 40 anos, os substitui pela estabilidade de um inglês “velhote mas ainda vigoroso”, cujo nome Hubert H. Hubert nos remete a Humbert Humbert, de Lolita. Já o pai de Flora, Adam Lind, um fotógrafo bem-sucedido, se suicida ao descobrir que o rapaz que amava estrangulara outro, inacessível, a quem amava ainda mais. Philip Wild, neurologista, marido de Flora, conduz um experimento através do qual o suicídio é transformado em prazer e morrer passa a ser algo divertido, pois pressupõe a escolha pelo vazio tentador: projetar a imagem mental de si mesmo sobre seu quadro-negro interior e iniciar o processo de autodissolução – morrer por tal processo, segundo o narrador, permitirá o maior êxtase conhecido pelo homem.

O original de Laura é uma composição enxadrística parcialmente elaborada, muito embora nos seja possível antever alguns de seus movimentos mais necessários, estipulações, tema, economia e valor estético. Estão lá – entre mitos, notações, fases, estratégias e variantes – Lolita, Fogo pálido, Ada ou ardor, as mesmas provocações de sempre ao “louco” de Viena e uma série de atalhos entre as personagens e a vida, entre a vida e a morte – é contra ela que Nabokov escreve – entre a morte e a escrita.

Como em certos textos de Jorge Luis Borges, e outros do próprio Nabokov, O original de Laura inventa um leitor primordial, nada supersticioso, que colabora com as intenções do autor, jogando com ele um fascinante xadrez, e o ajuda a completar o romance. Talvez, daqui para frente, com a internet e seus mais variados rizomas e hipertextos, seja mesmo um aspecto fundamental da leitura: ler é reler. Mas, pensando bem — e Nabokov é uma prova disso –, quando não o terá sido assim?

Original de Laura, O
Vladimir Nabokov
Ficção
Editora Alfaguara
ISBN 9788579620027
304 páginas
R$ 59,90

(*) Publicado em 19/12/2009 no caderno Ideias & Livros, do Jornal do Brasil.

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cssoares

C. S. Soares é autor do romance Santos Dumont Número 8 e editor do Pontolit.

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