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Nota do autor

Prólogo

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Prólogo

Uma lemniscata de si mesma, assim é a história: curvilínea e distorcida como a curva de Jakob Bernoulli; sinuosa, sibilante e sensual como o símbolo infinito de John Wallis; um número 8 deitado, uma tira de Möbius esquisita e conveniente em sua constante transformação em si mesma.

Então, se é assim, que assim mesmo o seja, a história, essa lemniscata de todos nós, insistente navegar-se, permanente e necessário, eterno recomeço, progressão e regressão ininterruptas, contínuo e inevitável retorno das su-pers-ti-ções.

Sabe por quê? Muito simples: porque assim é a História e é para isso que ela serve. Ou pelo menos quase.

Parque do Aeroclube de Paris. Saint-Cloud.

Quinta-feira, 8 de agosto de 1901.

6 horas e 12 minutos.

“Lâchez tout!”

No momento em que os integrantes do Comitê Científico do Aeroclube de Paris estiverem posicionados, apreensivos, e os cronômetros em suas mãos prontos para serem disparados, o grito que escutarão dos lábios de Alberto Santos-Dumont acionará os polegares e o tempo, como se ligados e controlados sejam por um punhado de fios invisíveis brotando dos pensamentos do inventor.

O condicionado reflexo que o tempo dispara, a descrever toda uma história, é provável que a isso também se preste: o Santos-Dumont Número 5 será um balão dirigível livre de amarras, que iniciará uma rápida subida com seu imenso nariz amarelo apontado em direção à torre de Gustav Eiffel.

A velocidade será surpreendente, pois voará com o vento e mantendo-se entre 200 e 400 metros de altitude em aproximadamente 10 minutos se aproximará do imenso metal que será contornado sob o olhar vidrado de uma pequena multidão tirada da cama, alertada que será, pelo zumbido de um motor sobre suas cabeças.

“D’accord… D’accord…”

Tempo de retribuir aplausos e assovios não existirá, pois nos instantes que se seguirão Alberto perceberá que alguma coisa não vai nada bem. O balão perderá rigidez, porque, através de um defeito na válvula automática de controle, o gás escapará além da conta, como além da conta parecerá lhe ser o pressentimento ruim e pesado apesar de também pairar no ar.

No caso de um passeio comum, o procedimento-padrão seria alguma coisa do tipo interrompa-se-vôo-e-resolva-se-problema, como antes já o fizera, não poucas vezes; entretanto, Santos-Dumont estará no meio de uma disputa importante: o Prêmio Deutsch (100 mil francos para o aeronauta que, saindo de Saint-Cloud, contorne a Torre Eiffel e retorne em no máximo 30 minutos, comprovando, assim, a dirigibilidade dos balões). Um comitê que o espera e uma multidão que o aclama pesarão em sua decisão de continuar até às últimas conseqüências…

Aos 28 anos de idade, Alberto Santos-Dumont, mineiro de Cabangu, já faz dez anos vive em Paris, tem a altura de pouco mais de um metro e meio e o peso de aproximadamente 50 quilos. Alberto parece ser um homem no formato apropriado para voar e também de coragem suficiente para arriscar-se a, literalmente, ir pelos ares (talvez, tenha mesmo chegado o momento de o homem-pássaro ir pelos ares).

Fronte larga, olhos castanhos, um tanto salientes, sobrancelhas delgadas, nariz forte e levemente aquilino, pequeno bigode aparado e curto sobre a boca bem rasgada, queixo voluntarioso marcado por um fundo sulco, dentes grandes, pele amorenada.

Refletida no olhar penetrante, certas vezes malicioso, uma tenacidade que iguala seu grande idealismo e autoconfiança. Junte-se a isso um coração bondoso, que facilmente se comove, e uma grande vocação para se meter em situações graves e acidentes…

O balão continuará perdendo sua forma e, muito rapidamente, assemelhar-se-á a uma imensa tromba de elefante amarela, desgovernada; se não agir rápido o bastante, é possível que Santos-Dumont, finalmente, chegue ao fim de seus dias.

Em momentos como esse, em que não existe tempo sequer para sentir medo, seu sangue frio parece nunca abandoná-lo e sozinho, dependurado na aeronave, tentará de todas as maneiras evitar o pior e manter sua garantia de sorte contra os acidentes mais terríveis.

Santos-Dumont não abandonará o leme, ele cuidará do motor, observará com preocupação a perda acentuada de rigidez na forma do balão, o complexo problema da altitude e da manobra do cabo pendente, além do deslocamento dos pesos, economia de lastro e assistência à bomba de ar ligada ao motor. Aparentemente, é assim que as coisas devem ser.

Próximo a “La Muette”, ao alcançar as fortificações de Paris, as cordas de suspensão do balão se arquearão demasiadamente a ponto de algumas delas se engancharem na hélice de marcha e serem cortadas e arrancadas, uma a uma, pelo propulsor.

O aparelho começará, então, a ser levado de encontro à Torre Eiffel, o maior de todos os medos de Santos-Dumont, o mais grave de todos os perigos ao se contornar a torre.

Santos-Dumont continuará caindo cada vez mais rápido, mas se jogar o lastro fora, poderá ser definitivamente jogado pelo vento contra os ferros do grande monumento e, assim, lhe chegará um pensamento resignado…

Vou ter que contar com a minha sorte, mais uma vez…

A imagem dos tetos e das chaminés que correm abaixo, como se esperassem recebê-lo com a boca arreganhada da morte, cheia de dentes, para que não se sobre um osso inteiro que conte a história, será pavorosa. Mas se teimoso é de não sentir o medo, quase não se conterá de expectativa…

Que se encontra, do lado de lá, depois de morto?

Na iminência da tragédia, Alberto fechará os olhos e, de imediato, chegarão a ele o silêncio e a escuridão. Suspenso entre o nada e coisa nenhuma, convicto de que nada mais poderá ser feito, acordará e sonhará, de olhos bem fechados…

Os olhos, que lentamente se abrem, arrastam Santos-Dumont novamente à tarde de 23 de outubro de 1906. Que estranha sensação é esta, de déjà-vu, de lembranças impossíveis de terem sido vividas, que Francisco Abayomi ainda não entende? Como também não consegue entender, se o passado ainda não foi resolvido porque retorna ou se é o contrário.

É possível que, assim como um dos fotógrafos do L’Illustration, periódico francês daqueles dias em sépia, algum aspirante a George Méliès, da Companhia Pathé, que em poucos minutos registrará, de cinematógrafo em punho, o primeiro vôo de um “mais-pesado-que-o-ar”, também capture as imagens de um Santos-Dumont introspectivo, viajante de um passado, ao qual Francisco Abayomi predestinadamente também viajará.

Sentado no cockpit de seu aeroplano Santos-Dumont Número 14-Bis, por um breve instante, um pensativo Alberto pondera se não seria melhor desistir e deixar as coisas como sempre estiveram: adormecidas, silenciadas, anoitecidas…

Entretanto, está escrito que neste dia especial Santos-Dumont se levantará do chão. Neste dia especial, o Campo de Bagatelle será palco e platéia de um minuto memorável na história da humanidade, e de todas as conseqüências, boas e más, que eventos dessa magnitude acarretam.

A multidão que se aglomera em torno do aeroplano começará a se afastar dando passagem a Santos-Dumont, que de todas as mãos receberá o aceno, de cada aceno, um sonho, de cada sonho, um mistério, e de todos os mistérios, o encanto.

Sim, existe um encanto a ser quebrado (o que prende os pés do homem ao chão) e ele será quebrado. Mas existe também um destino a ser cumprido e uma maldição a ser destruída. Uma maldição chamada desesperança, que, dos pecados capitais, é o de número 8.

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  1. Roland Barthes escreve em A preparação para o romance vol I que existe “a necessidade de colocar o trabalho a fazer num escaninho estreito e finito: o último escaninho”. O prólogo deste romance é como esse último escaninho: delimitado, porque nada mais há para fora-do-escaninho. O prólogo deseja abarcar a obra e, solenemente, usa o tempo antes da morte…

  2. I think i’ve seen this somewhere before…but it’s not bad at all

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  1. Leia @sd8 | Santos Dumont Número 8 - [...] sequencial, basta apontar seu navegador para o endereço http://www.pontolit.com.br/sd8/, onde, o Prólogo já pode ser lido e comentado. A ...

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