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Nota do autor Olhos de Theda Bara

Coração de Santos Dumont

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Coração de Santos Dumont

Papai, então me explica para que serve a história. – Marc Bloch. Apologia da História.

Sei que nada neste mundo pode explicar melhor uma realidade do que suas próprias causas. O que sinceramente não consigo entender é por que será então que certos dias parecem não querer terminar nunca mais? Certos dias como, por exemplo, aquele em que, pelo menos aparentemente, tudo isso ainda começava. Qualquer um que visse Carolina Veríssimo atravessar decidida a sala do setor de Intercâmbio e Doações da Biblioteca Nacional em direção à minha mesa, ainda assim, notaria seu nervosismo.

Claro, seria quase impossível adivinhar os motivos que a impulsionavam.

Em suas mãos, um jornal, e seus passos pareciam mais fortes e ainda mais decididos à medida que se aproximava de mim, a ponto de me fazer emergir abruptamente da profunda concentração em que me encontrava…

Santos-Dumont não se suicidou…

… e desviar meu olhar do material que eu estava analisando…

O próprio Governador de São Paulo, dr. Pedro de Toledo, determina que não haja inquérito e que sejam cumpridas suas ordens. Esta página não deverá ser escrita pela história. Um herói nacional não se suicida…

… e ver Carolina chegar como um furacão, e disparar em minha direção, como uma espécie de cobrança.

— Abayomi, você já olhou os jornais de hoje?

A voz de Carolina era tensa e transmitia certa gravidade.

É possível que nem sempre a história se reconheça na imagem que o espelho lhe retorna, pois, quase sempre, se encontra desfavorável às certezas. Naquele momento, sobre a minha mesa estavam espalhados, como peças de um quebra-cabeça, vários livros, cópias e recortes de jornais e revistas muito antigos e algumas páginas impressas de sites da internet, um vasto material que eu estava pesquisando sobre Alberto Santos-Dumont…

Alberto Santos-Dumont tirou a própria vida em um quarto do Grande Hotel de La Plage, Guarujá, em 1932. O motivo, dizem alguns, teria sido uma profunda depressão causada pela constatação de que o avião, seu invento, estava sendo usado para fins militares. Virara um instrumento de morte e destruição…

Há testemunhas que juram ter visto o inventor presenciar um bombardeio na ilha da Moela, Guarujá, em frente à praia do Grand Hotel, pouco antes de recolher-se a seu quarto para enforcar-se, com a própria gravata, segundo alguns, com o cinto do roupão de banho, segundo outros…

A certidão de óbito ficou sumida por 23 anos…

— Ainda não, Carolina. Como você pode ver o que não me falta aqui são jornais, mas ainda não tive tempo de ler os de hoje. Por quê? Aconteceu alguma catástrofe?

— Abayomi, dê uma olhada neste jornal aqui e me diga se tenho ou não razão quando digo que suas pesquisas parecem sempre atrair confusão…

— O quê Carolina? Você não está dizendo coisa com coisa… Você pode, por favor, me explicar o que está acontecendo? Não estou entendendo nada.

Carolina não parava sequer para respirar, e eu ainda tentava arrumar um último recorte daqueles sobre a minha mesa…

Somente em 3 de dezembro de 1955 seria registrado o óbito. A causa mortis indicada era um suposto colapso cardíaco…

— Olhe com seus próprios olhos Abayomi…

Quando li o jornal que Carolina me trouxera compreendi sua preocupação e o que ela realmente queria dizer. A manchete estampada era, coincidentemente ou não…

ROUBADO O CORAÇÃO DE SANTOS-DUMONT!

Por que eu digo coincidentemente ou não? Bom, deixe-me tentar explicar para você que acabou de chegar e não tem a mínima obrigação de saber do que se trata esse meu comentário específico. É que depois desses anos todos, devo confessar, já estou um pouco mais acostumado com essas tais chamadas coincidências, sabe? Sei que coisas estranhas acontecem o tempo todo e devo aceitar que acontecem mesmo. Nunca tive o hábito de me impressionar com essas coisas, juro, mas, naqueles dias malucos de outubro de 2006, eu passava a desconfiar um pouco da própria razão de ser das coisas. Naqueles estranhos dias, eu era um estudioso, um quase-historiador, e estava tocando uma pesquisa sobre Alberto Santos-Dumont. Era o ano do centenário dos vôos do 14-Bis no Campo de Bagatelle, em Paris, em outubro e novembro de 1906, e aí é que vêm as tais esquisitas coincidências, um diário muito estranho havia sido encontrado na Biblioteca Nacional, e eu fora encarregado pela professora Ariadne Bosch, coordenadora da Divisão de Informação Documental, de buscar respostas para a série de perguntas ainda pendentes com relação ao tal diário.

Eu já havia encontrado e separado algumas informações surpreendentes sobre o “Pai da Aviação”, do tipo “coisas-que-não-se-aprendem-na-escola”, sabe? Quer um exemplo? Veja só esta aqui…

Após a morte de Santos-Dumont, em 23 de julho 1932, aos 59 anos, em plena Revolta Constitucionalista, decidiu-se que seu corpo seria embalsamado para que mais tarde, com os ânimos menos acirrados, pudesse ser transferido de São Paulo para o Rio de Janeiro e, com o país lhe prestando as devidas homenagens, Santos-Dumont pudesse ser sepultado no mausoléu da família, que ele mesmo ajudara a construir poucos anos antes, no cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo. O médico responsável pelo embalsamamento, dr. Walther Haberfeld, resolveu remover o coração do inventor. Guardou-o por vários anos. Em novembro de 1944, por intermediação de Paulo Gomide, na época gerente da Panair do Brasil (subsidiária brasileira da Companhia Aérea Pan American Airways), o coração conservado foi doado ao governo brasileiro, dentro de uma esfera dourada de aproximadamente 10 polegadas, protegida pela figura alada de Ícaro. O escrínio, criação do designer Erico Monterosa, contendo o coração de Santos-Dumont, preservado em líquido especial há mais de 60 anos, encontrava-se guardado no Museu Aeroespacial no Rio de Janeiro. Até que foi…

— Roubado?! O coração de Santos-Dumont foi roubado?! Mas, como?

— Pois é. Roubado. Como? Ninguém sabe ainda. Por que e por quem? Muito menos. Mas nós dois sabemos que…

— Carolina, pare com isso. Não tem nada a ver com as pesquisas que estou realizando. Odeio ter de dizer isso, mas, nesse caso, tudo isso não passa de mera coincidência.

Devo confessar que eu mesmo, que nunca fui afeito a acreditar em coincidências (sempre precisei ver para crer), achava tudo aquilo tão fantástico que minha atitude de cara foi simplesmente negar-me a enxergar as evidências. Não quis entrar muito no mérito da questão, mas confesso que não durou muito tempo, pois Carolina, osso duro de roer, continuou – e lhe agradeço muito por isso –, tentando me abrir os olhos:

— Francisco, não pode ser apenas uma coincidência. Estou convicta…

Santos-Dumont podia ouvir o ronco dos aviões do governo, indo em direção a capital paulista para missões de bombardeio, minando-lhe os nervos, obrigando-o a tapar os ouvidos. O ruído, aquele ruído, aquela perseguição… E agora o aeroplano, seu invento, fruto de pesquisas e trabalho árduo de toda sua vida, empregado para a destruição e luta entre irmãos. Quando retornou ao hotel, Santos-Dumont entrou no quarto e não saiu mais…

É claro que mesmo tentando evitar pensar no assunto eu também sabia que aquilo tudo não podia ser apenas uma simples coincidência. Achava muito estranho que coisas tão inusitadas a respeito de Santos-Dumont começassem a acontecer desde o momento em que, acho que foi aí que tudo começou de fato, eu abrira e começara a ler O que eu vi. O que nós veremos, um livro escrito pelo próprio Alberto Santos-Dumont, por volta de 1918, em sua casa de Petrópolis, a “Encantada”.

Como não desceu para almoçar, os funcionários sentiram sua ausência e o procuraram; bateram na porta do quarto 152, no qual ele se hospedava, mas não obtiveram resposta. Funcionários da limpeza do hotel arrombaram então a porta e encontraram o inventor no banheiro, já sem vida…

Muito mais do que eu e Carolina pudéssemos imaginar, naquele momento em que eu comecei a ler o livro, jamais adivinharíamos o que de mais fantástico aconteceria algumas semanas depois (apenas alguns dias antes da notícia do inusitado roubo): um estranho diário seria encontrado na Biblioteca Nacional, e uma certa história continuaria a ser contada, mas de uma forma bastante diferente da qual costumavam contá-la…

Não existe uma concordância com relação ao instrumento usado no enforcamento.

Gravatas vermelhas ou cinto do roupão de banho? Apenas alguns anos após o infeliz acontecimento, sequer as autoridades policiais que acompanharam de perto a retirada do corpo do Grand Hotel La Plage tinham certeza (!?)

— E então, Francisco? Esse é um roubo bastante estranho, não acha?

— É possível, provável e justo, Carolina…

No conceito enganoso dos calendários que se alimentam de fatiar o tempo, estávamos, eu e Carolina, em uma terça-feira, 17 de outubro de 2006. Como eu jamais me sentira na obrigação de manter-me comprometido com o impossível, com o improvável, era natural que, mesmo naquela situação incômoda em que me encontrava, a de quase dar ouvidos aos estranhos pressentimentos que me atormentavam, ainda mantivesse meu costume de condenar o que não entendia. Porém, começava a aceitar que, como me aconselhara Sêneca, pelo som da própria voz de Carolina, seria uma vergonha recusar-me a aprender. A sorte continuaria me favorecendo, como somente aos persistentes favorece, e, para isso, não me custaria muito apenas tentar acreditar que chegava o momento de contar a história, ou talvez, quem sabe, continuar contando-a, tal e qual já a contava em meus estranhos sonhos…

É muito provável que o mito esteja correto e que a consciência humana tenha começado como uma onda desprendida do oceano de uma consciência maior, infinita, ilimitada e eterna. Consciente de si mesma, esta consciência desgarrada esqueceu que era parte deste oceano infinito e se sentiu solitária. E pior, acreditou piamente que era solitária. Porém, esta consciência, através de seu fluxo contínuo, através dos nossos sonhos, recebe mensagens simbólicas que transbordam das fronteiras daquela consciência infinita e adentram a chamada realidade objetiva. Certas vezes, esta realidade objetiva acaba se tornando tão parecida com um sonho que começamos a desconfiar se o que efetivamente está lá fora de nós não passa apenas da aplicação do paradoxo do mentiroso (Quando um homem diz que está mentindo, o que ele diz é uma verdade ou uma mentira?) e também de sua negação (Quando um homem diz que está falando a verdade, o que ele diz?). Todos estamos conectados em algum nível de consciência. Somos hipertextos ambulantes. Precisamos apenas descobrir os links…

— Bom, Carolina, sabe aqueles sonhos estranhos? Aqueles que andei tendo depois do acidente?

— Sim, Abayomi, o que tem os sonhos?

— Eles voltaram. E ainda mais nítidos.

— Aqueles sonhos?!

— Sim, e eles me parecem ainda mais lúcidos…

— Mas que tipo de sonhos? Não me diga que tem alguma coisa a ver com o diário…

— Pois é…

— Eu tinha certeza, Abayomi, não te disse? O que vimos acontecer nas últimas semanas tem alguma espécie de relação… Mas, me conte, como foram esses sonhos?

— Fantasmas do passado, de 1914 mais precisamente, da Primeira Guerra Mundial, da época em que os diários de Santos-Dumont foram supostamente queimados.

— Como assim? Não entendi. O que efetivamente acontecia no sonho?

— Não sei bem por onde começar, porque…

— Ora Abayomi, começar com o mais importante é sempre uma boa escolha. Por que não começa pelos tais fantasmas da Primeira Guerra Mundial? Pelo menos, foi esse o tema do seu sonho, não foi?

— É, mais ou menos, eram fantasmas um tanto quanto estranhos, diga-se de passagem.

— Existe um ditado que diz que dos mortos não devemos dizer uma só palavra que os ofenda, pois eles caminham conosco na memória das palavras que nos instruem e das imagens que nos guiam…

— Entendo, não é minha intenção ofender os mortos, mas mesmo mortos seus fantasmas às vezes são eloqüentes… Talvez eu nem devesse dar tanta importância a esses sonhos, afinal são apenas sonhos…

— Nem sempre, Abayomi.

— Pode ser. Então, deixe-me contá-lo. Depois você me diz o que acha, mas não pode rir, certo?

— Ora, Abayomi, você sabe que eu jamais riria dos seus sonhos… pelo menos não muito…

Quando aquele antigo diário, descoberto poucas semanas antes na Biblioteca Nacional, foi parar nas minhas mãos, passei a colaborar ativamente nas pesquisas que visavam a confirmar, ou não, a autenticidade de tal documento. De tão interessado no assunto, comecei a esmiuçá-lo imediatamente e durante a madrugada do primeiro dia depois de tê-lo recebido da professora Ariadne Bosch, sonhei estranhos sonhos e os relacionei ao conteúdo do estranho diário. Aceito que estava bastante impressionado, mas não o suficiente para achar que alguém pudesse considerar aqueles sonhos (inclusive eu mesmo), mais do que resíduos da minha grande expectativa em começar logo a desvendar aqueles relatos. Meros lixos mentais que eu sonhava basicamente para esquecê-los. Mas algumas das cenas que me chegaram durante aqueles sonhos, se consideradas no contexto dos acontecimentos dos últimos tempos, seriam no mínimo impressionantes.

— O que você acha, Carolina? Seria possível?

— Claro que sim, Abayomi. É tão absurdo, inusitado, que não tenho como não acreditar. Ainda mais vindo de você, não é mesmo? Carolina tinha os seus motivos para demonstrar tão enfaticamente sua opinião a respeito daquela, digamos, estranha possibilidade.

— Tudo bem, Carolina. Olha só, acho melhor esquecer isso tudo, estou me sentindo ridículo. Talvez eu esteja mesmo um pouco impressionado, quem sabe? Mas é que o pesadelo me pareceu tão real… É impossível não associar as coisas. Mas talvez seja melhor deixar para lá…

— Calma, Abayomi… Calma… Você vai ficar bem. Apesar de não podermos descartar seus sonhos e pressentimentos, você sabe que eu seria a última pessoa no mundo a te pedir isso, vamos, por enquanto, continuar de onde paramos, não podemos perder a seqüência…

— Claro, não podemos deixar o trivial nos interromper…

— Não, eu não disse que seja trivial… você não me entendeu, então.

— Estou apenas brincando. Entendi o que você quis dizer. Mas, como diz o ditado, quando duas pessoas fazem (ou falam) a mesma coisa, é porque não é a mesma coisa. E um outro, até mais conhecido, complementa que os fins justificam os meios.

— Sim, e daí? Abayomi, então eu é que não estou entendendo.

— Carolina, falo em relação ao diário. E se Santos-Dumont não tivesse realmente destruído os seus diários?

— Espere um pouco. Você não está querendo insinuar a possibilidade de…

— Carolina, eu não entendo como pude ser tão idiota e não ter percebido todas essas evidências antes…

— Calma, Abayomi. Muita calma. Primeiro, tínhamos aquela foto polêmica do suposto vôo dos irmãos Wright em 17 de dezembro de 1903…

— Pois é. Apenas uma foto, o que prova uma foto, não é? Como o próprio Santos- Dumont falava. É possível, provável e justo que devamos temer não somente os homens de um só livro, mas também os de uma só foto…

— Concordo plenamente, Abayomi. Ainda mais agora que temos, além daquela foto, um diário e essa outra foto de Alberto Santos-Dumont no cockpit de um suposto aeroplano Número 8, aquele que os biógrafos afirmam categoricamente nunca ter existido, por causa de uma suposta superstição de Santos-Dumont com relação ao número 8…

— Sim, mas ainda não podemos afirmar nada apenas a partir desses documentos. Mas, se eles forem verídicos e a data nesta foto, 8 de agosto de 1902, e as informações no diário forem corretas, acho que estaremos mudando um conhecimento sobre o passado…

— Mas devemos ter o cuidado de evitar o monismo das causas…

— Causas devem ser buscadas e não postuladas, como dizia Marc Bloch, não é mesmo? Como dois quase-historiadores temos que, antes de recontar a história, dizer por que podemos recontá-la. E, claro, cuidar na dose, pois é ela que faz o veneno. Creia em mim, Carolina, eu vivi isso.

— Eu sei Abayomi. Já disse e repito, sem ironia, pode acreditar em mim também, tudo isso que você está dizendo é tão absurdo que eu acredito. Além do que somos pagos para isso.

— Uma forma bastante pragmática de se justificar nossa curiosidade de historiadores em capturar novos conhecimentos…

— Temos que ter consciência de nossas responsabilidades, mas precisamos sempre de novos olhos para enxergar as mesmas paisagens. O sonho da razão exacerbada produz monstros.

— Monstros criados por nossos hábitos e livros…

— Não pelos livros, exatamente, Abayomi, mas pelos destinos deles.

— Concordo com sua hipótese, Carolina. Mas não lhe asseguro que seja verdadeira…

— Ora, pare de brincadeiras, Francisco Abayomi. Afinal de contas, podemos ter algo muito importante aqui. Devemos de alguma forma buscar as respostas. Por onde você acha que devemos começar?

— Ora, Carolina, começar com o mais importante será sempre uma boa escolha…

— Sei… acho que já escutei isso antes… e não faz muito tempo…

— É que gostei dessa sua frase. Achei muito apropriada e oportuna… Vamos, então, primeiro, recapitular o que sabemos. O que você acha?

Alberto Santos-Dumont costumava numerar seqüencialmente suas invenções aeronáuticas. Criou do Santos-Dumont Número 1 ao Santos-Dumont Número 22. Somente um nesta seqüência foi pulado, o Santos-Dumont Número 8, o SD8. Biógrafos de Santos-Dumont são quase unânimes em afirmar que ele nunca existiu. A única e incômoda lacuna se encontra, justamente, entre os Números 7 e 9. Assim como, estranhamente, apenas o Número 14 teve um bis. Teoricamente, Santos-Dumont destruiu seus diários em 1914, por ocasião da invasão de sua residência em Bènerville, Canal da Mancha, por oficiais do Exército Francês. Pesava na época, contra ele, uma acusação de colaboracionismo com a Alemanha do Kaiser… (Francisco Abayomi; Caderno de Anotações.)

— A falta de informações dificulta ainda mais a tentativa de reconstrução da verdadeira história. A ausência do Santos-Dumont Número 8 e a existência de um Bis para o Santos-Dumont Número 14 sempre foram enxergados com alguma desconfiança. Mas, é possível que isso tudo não passe de uma simples coincidência, um mero acaso, não é mesmo?

— Mas pode ser que não seja, Abayomi. A história, como afirmava o próprio Alberto Santos-Dumont, não se escreverá senão com o recuar no tempo.

— Força de expressão, não é, Carolina? Bom, mas o que efetivamente temos é uma dúvida a respeito do SD8, que permanece suspensa por esses mais de 100 anos…

— Exatamente, Abayomi. Pelo menos até o momento em que esse diário seja decifrado ou que recuemos no tempo…

— Carolina Veríssimo, isso foi apenas um sonho! Nada mais do que isso! Vamos colocar um ponto-final nesse assunto, ok?

— Tudo bem, Abayomi. Já temos questões suficientes a serem respondidas e seus sonhos são sempre muito complicados de interpretar se não os considerarmos ao pé da letra. Apesar de você não querer aceitá-los. Mas, vamos às suposições sobre esses documentos. Se esse diário que a professora Ariadne entregou a você for verdadeiro, as opiniões com relação à não-existência do Santos-Dumont Número 8 vão por água abaixo, certo?

— Certo.

— E mais. Dessa forma, o primeiro mais-pesado-que-o-ar, o termo que usavam na época para aeroplanos, teria sido planejado e desenvolvido por Santos-Dumont bem antes da data na qual os irmãos Wright alegaram ter voado, o que acabaria definitivamente com a polêmica sobre a primazia do primeiro vôo mecânico. Correto?

— Isso mesmo. Santos-Dumont teria desenvolvido o SD8 entre 1901 e 1902. Provavelmente, enquanto ainda se ocupava em vencer o Prêmio Deutsch…

— Perfeito. Agora, uma coisa me intriga: por que afinal de contas Santos-Dumontnão o teria divulgado?

— Sabe-se lá a razão… Esses assuntos mal-explicados, desconhecidos, ficam sempre com uma aparência estranha, de meio miraculosos, meio mágicos… Inclusive, estou começando a achar que essas coisas com as quais estamos mexendo são muito mais complicadas do que parecem.

— Ué, Abayomi. Pensei que fosse só eu que acreditasse que o que os olhos não vêem o coração pode pelo menos pressentir…

— Não é exatamente disso que estou falando. Apenas acho que o que quer que seja feito deve ser feito prudentemente.

— Como diz Sêneca, scire aliquid laus est, pudor est nihil discere velle.

— O que isso significa, Carol?

— Significa que é recomendável conhecer algumas coisas, é vergonhoso recusar-se a aprender…

Hoje, tanto eu quanto Carolina provavelmente acrescentaríamos que mais do que vergonhoso, talvez seja até muito perigoso…

Dois anos depois, lembrar daqueles estranhos dias de outubro de 2006, e dos outros ainda mais estranhos que se seguiram àqueles, me assegura que a conseqüência daquele aprendizado é a assustadora constatação de que, quase sempre, de fato, a história não se reconhece na imagem que o espelho lhe retorna. Tenho a impressão de que já disse isso antes… enquanto fechava meus olhos e acordava…

No exato instante em que eu e Carolina acompanhamos, com grande expectativa, o livro que cai, como que em câmera lenta, de uma das estantes do setor de Obras Raras da Biblioteca Nacional, a memória daqueles dias que parecem não querer terminar chega como ondas em minha cabeça e eu me questiono se depois de enxergar com meus próprios olhos o que os livros contam, esmiuçar, em meu próprio pensamento, o que das entrelinhas suas palavras segredam, viajar com o tempo que de fato nunca passou, e, certas vezes, aparentemente, perder todas as minhas esperanças, por que, afinal de contas, ainda continuar a abrir e ler os livros? No fundo, porque talvez eu saiba que não tenho outra escolha e porque tenho também a certeza de que seja preciso fazer isso.

Em poucos minutos, no conceito enganoso dos relógios que se alimentam do esvair-se das horas, contagem regressiva que é da morte, eu, Francisco Abayomi, literalmente desaparecerei bem diante dos olhos de Carolina e navegarei o fluxo, aquele que se origina no futuro, atravessa inapelavelmente o presente e mergulha inexoravelmente no passado. Assim, dessa forma, um destino deverá ser cumprido.

Não posso ter certeza agora, mas acho que no momento certo pensarei, como outras tantas vezes já pensei, em voz alta, está bem, que se cumpra, então, o meu destino e que o número 8 seja escrito novamente… da mesma forma que esses sonhos que parecem não terminar nunca, pois outros antes de mim já os sonharam, e se agora os sonho, é bem certo que outros no futuro continuarão a sonhá-los em progressão, cada vez mais profundamente em sua abrangência, como a espiral logarítmica de uma concha de náutilo, ou de uma flor de girassol, uma seqüência de Fibonacci, tão freqüente em sua aparição na natureza assim como o número 8, o dois elevado ao cubo, a perspectiva de um número 23.

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