Olhos de Theda Bara
Oh yes, wait just a minute mister postman / Wait, wait mister postman / (Please, mister postman look and see) oh yeah / (If there’s a letter in the bag for me) / Please mister postman / (I’ve been waiting a long long time) oh, yeah / (Since I heard from that girl of mine) / There must be some word today / From my girlfriend so far away / Please mister postman look and see / If there’s a letter, a letter for me / I’ve been standing here waiting Mister Postman / So patiently / For just a card or just a letter / Saying she’s returning home to me. — Bateman, Dobbins, Garnett, Gorman e Holland; “Please Mr. Postman”, gravada por The Beatles, em 1963.
Que toda história tem um começo, um meio e um fim pode ser certo ou quase certo. Mesmo que seja possível, provável e justo que nem sempre as coisas tenham sido dessa forma, decidido a deixar de desescrever o livro, escolho uma cena, aperto o play e dou início ao filme, o qual de inédito não tem quase nada (ou um pouco de tudo, quase). Sim, assistir ao livro sendo escrito ou o que quer que seja o significado disso… escrever um livro para ser “assistido”?
Uma bela noite para sonhar, não acha Carolina? Lembro que ainda éramos muito jovens quando te fiz aquela pergunta em um dia dos mais importantes de um dos meses de maio que vivemos mais intensamente. Quando? 1968? Onde? Biblioteca Nacional? Pois é, foi assim meio sem querer que peguei na suavidade forte e decidida de suas (quase translúcidas de tão brancas) mãos, olhei no fundo de seus olhos, e foi como se houvesse descoberto muito mais do que sua própria alma. Para além de seus misteriosos olhos de Theda Bara, que insistiam em me exigir que te beijasse (Beije-me logo seu tolo!), eu não enxergava mais nada ao meu redor. Foi quando, inesperadamente, do lado de lá daquele olhar inesgotável, o cúmulo do significado que tem o péssimo hábito de transformar-se em enigma, mirou-me e disparou um “ decifra-me ou devoro-te” que daquele momento em diante passou a me perseguir inapelavelmente os calcanhares. Um “ decifra-me ou devoro-te” que no fundo representará todas e ao mesmo tempo nenhuma das perguntas que podemos (devemos?) nos fazer em qualquer um dos dias do resto de nossas existências. Nem sei bem por que motivo preferi ficar em silêncio naquele momento. Se foi apenas por minha intenção de lutar contra o destino? Não, Carolina, não era bem isso que eu queria. Lembro que naquele dia tão importante os sons que saíram dos seus lábios de Carolina, molhados e mortais, inusitadamente (será?) me colocaram para sempre contra a parede: Por acaso, você é supersticioso? (Souza-Soares; Fragmentos de Diário.)
Biblioteca Nacional. Divisão de Manuscritos.
Segunda-feira, 29 de setembro de 2008.
— Largar tudo? Por que deveria fazer isso, Carolina?
— E você ainda me pergunta? Eu é que te pergunto: por que você foi abrir este livro? O que te deu na cabeça, hein?! Você não sabe que isso pode te fazer muito mal à saúde?
— Mas, meu Deus, é apenas um livro, Carol. O que isso pode ter de mais?
— O que isso pode ter de mais?! Muita coisa, caramba! Ah, Abayomi, certas vezes você me parece tão sem noção…
O que se originava no futuro continuava atravessando inapelavelmente o presente, mergulhando inexoravelmente no passado e dele retornando avassaladoramente imprevisível como as pessoas e como certos dias que pareciam não querer terminar nunca mais…
Exatamente como uma lemniscata.
É, Carolina pode ter lá a sua razão…
Se, com insistência, me questiona por que resolvi abrir os livros, deve ser (ou melhor, só pode ser) porque já tenha percebido que assim como o tato das mãos deve existir um tato de história, ou, pelo menos, das palavras que contam as histórias que leio, que releio, aquele tato que me mergulha na certeza de que ela, a História, é uma devoradora de homens. Nós, exploradores do passado, de forma alguma podemos nos considerar homens livres. Alimentamo-nos de vestígios. E esses vestígios são as migalhas com que esse passado, estrutura em constante mudança, nos alimenta e aprisiona…
Pois é, Carolina deve ter mesmo razão…
Se me vejo na situação inevitável de abrir os livros e ler suas historias às avessas, restituindo-lhes seu movimento mais necessário e verdadeiro, é porque aceito que a incerteza sempre está em nós mesmos, em nossa memória que falha e compromete, não nas coisas que olhadas de perto definitivamente não me parecem tão simples assim como querem nos fazer crer aqueles que pintam, em quadros maravilhosamente lógicos de palavras, essa história de acontecimentos e episódios que nos contaram, com atos, atitudes, discursos, personagens, cenas e cenários tão bem arrumados, esse pintores historizantes de palavras, que, dizendo respeitar as ciências, não se privam de desinteressar-se de suas ferramentas. Ora, a realidade nunca será mais bem compreendida desprezando-se suas causas…
Certo, Carolina, você tem mesmo razão…
Mas tenho um problema ainda maior: estou no fim da fila. O que aconteceu lá na frente vem sendo transmitido de um para outro nessa fileira, e deve me chegar de uma forma muito distorcida, entende? Não estou em um lugar muito bom para me considerar bem informado, caso não resolva avançar… Por isso leio os livros, e os questiono também, pois, não sei se você percebe, mas eles só têm me falado quando sei interrogá-los. Mesmo aceitando o pacto de que isso pode – até de certa forma concordo com você, minha querida – não me fazer muito bem à saúde. Mas é que, não sei se você compreende o que quero lhe dizer, a busca (inclusive a de nós mesmos) é um espetáculo que até pode assustar, mas raramente entedia. De fato entretém, e, se você reparar bem, quem foi que disse que a História deve ser uma ciência apenas do passado? A História é uma lemniscata.















Apollinaire Mont Thabor
Ariadne Bosch
Carolina Verissimo
Francisco Abayomi
Garcia Henriques
Mathias Violante
Ray Dobbin
SD8
Souza-Soares
Espere! Oh sim, espere um minuto Senhor Carteiro. / Espere! Espere Senhor Carteiro / (Senhor Carteiro, olhe e veja.) Oh sim / (Se há uma carta em sua bolsa para mim) / Por favor Senhor Carteiro / (Fiquei esperando por muito muito tempo) oh, sim / (Desde que eu ouvi notícias da minha garota) / Deve haver alguma palavra hoje / De minha namorada que está tão distante / Por favor, Senhor Carteiro, olhe e veja / Se há uma carta, uma carta para mim / Fiquei parado esperando aqui, Senhor Carteiro / Tão pacientemente / Por apenas um cartão, ou uma carta / Dizendo que ela está voltando a casa, para mim (Bateman, Dobbins, Garnett, Gorman e Holland. “Please Mr. Postman”, gravada por The Beatles, em 1963.)