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Olhos de Theda Bara Alterar o passado

Assombrado por Hypnos

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Assombrado por Hypnos

Em 1691, o Padre Gerbillon, da Companhia de Jesus, comprovou que do Palácio de Kubla Khan somente restavam ruínas; do poema (de Samuel Taylor Coleridge), consta-me que somente se resgataram uns 50 versos. Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao seu fim. Ao primeiro sonhador lhe foi mostrada de noite a visão do palácio. Se o esquema não falhou, alguém, em uma noite das que nos separam os séculos, sonhará o mesmo sonho e não suspeitará que outros já o sonharam, e dará a ele a forma de um mármore ou de uma música. Talvez a série de sonhos não tenha um fim; talvez a chave esteja no último deles. Jorge Luis Borges. Livro de Sonhos.

Isso é apenas um sonho…

Normalmente, acontece assim, desta maneira mesmo: bem próximo do fim do pesadelo, eu acabo descobrindo que aquilo era apenas um sonho, e segundos depois, um pouco mais aliviado, abro os olhos e repito, apenas para ter certeza, “Isso foi apenas mais um sonho!” Mas, confesso: às vezes, tenho dúvidas.

Não tenho o costume de pensar, durante um sonho, que aquilo que sonho seja apenas um sonho, sabe? Muito menos quando estou acordado fico repetindo para mim mesmo “veja só, eu estou acordado… eu estou acordado…”. Basta apenas aceitar que esses sejam dois estados de consciência diferentes, duas espécies de realidades diferentes, e que são o que são (pelo menos, enquanto duram). Bem, mas é justamente aí que está o problema: se aparentemente sou capaz de exercer um domínio sobre o conteúdo desses meus sonhos lúcidos (quer dizer, nem tanto, já que a situação me parece, de certa forma, estar fugindo do meu controle), por que essa sensação de memória dupla? Esses sonhos me causam uma impressão muito forte de que aquelas experiências possam ser mais reais do que o real que imagino…

Isso é apenas um sonho? Tudo bem, eu entendi… Mas, então, quem é o sonhador que sonha o sonho? O pensador que pensa do pensamento? E o escritor que, efetivamente, escreve o livro? Aquele que captura as idéias? Preciso compreender como isso funciona para saber se começo estas memórias pelo princípio ou pelo fim…

Pois, afinal, eu leio livros. Mas os livros também me lêem. Por isso, é possível, provável e justo que para essa minha história própria, essa que tenho lido, vivido e, por isso, escrito nos últimos tempos, provavelmente eu escolhesse como título algo do tipo “Certos dias, talvez continuem para sempre”. Mas apesar de até achar um bom título, me fica a impressão de ser um tanto quanto longo, e até pomposo, para o relato que se seguirá. Então, talvez fosse melhor escolher outro título, algo como “Dois elevado ao cubo” ou “O fim do Santos-Dumont Número 8”, por exemplo, ou, quem sabe, não escolher título algum. Isso mesmo, por enquanto, poderia ir assim, sem título. A história em si se transformaria no seu próprio título preenchendo o vazio. O vazio tem mesmo essa qualidade, dentre algumas outras: se de corpo não assume um contorno, um limite, de espírito, inesgotável, permanece dilatandose, expandindo-se, ampliando-se, desenvolvendo-se e evoluindo. Além do mais, as palavras nunca esgotam as coisas. Entretanto, se ao menos puderem ajudar a desviar o “ fluxo”, ah, já será uma grande coisa…

Chegou o momento de relatar o meu próprio delírio, quero dizer, minha própria história (o que no fundo dá no mesmo). E por falar nela, que toda história tem um começo, um meio e um fim, já não estou muito certo, sabe? Uma desconfiança muito parecida me causam os sonhos. E por falar neles…

Estranhos, muito estranhos são os sonhos e, mais ainda, seus propósitos, que não entendemos. Certa noite, vencido pelo cansaço e sonolência, sobre aquele livro, fechei os olhos e, adormecendo, sonhei. Acordando, desorientado, não sabia se acordava de um sonho sonhado ou, se ainda no sonho, sonhava que acordava. Parecia ser um sonho recursivo, semelhante àquele do sábio taoísta Zhuangzi, que, sonhando ser uma borboleta, não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que sonhava ser um homem. Porém, existem sonhos ainda mais estranhos, podem ter certeza. Como, por exemplo, aqueles que parecem sonhar a si mesmos, sonhos que parecem estar ingressando neste mundo vagarosamente, como areia do tempo que escorre em uma ampulheta. Sonhos que parecem nunca ter um fim.

Um sonho desse tipo parece ter sido sonhado, em continuidade, pelo poeta inglês Samuel Coleridge e pelo imperador mongol Kubla Khan. Coleridge sonhou, por volta de 1797, um poema que narrava a construção de um palácio. O mesmo palácio que o imperador Kubla Khan, no século XIII, sonhara e edificara segundo a sua visão onírica. Coleridge não sabia que o palácio se originara de um sonho, exatamente como o seu poema “Kubla Khan”…

Como escreveu Baudelaire, certos sonhos estão repletos de milagres; sonhos que talvez não sejam exclusividade de quem os sonha. Começo a desconfiar que sonhamos os sonhos sonhados por muitos antes de nós e que possivelmente também sejamos sonhados por eles. De que matéria estranha os sonhos são feitos? Por que estranha memória, aquele livro, que não pára de se reescrever, é lembrado? Inquieta-me que pareça fazê-lo com um propósito. Se apesar de todo esse tempo o mistério não desaparece, é porque do vazio e do silêncio emerge um grito, oprimido, mas que não se cala: o grito dos sonhos…

Se Abayomi sonhou o Santos-Dumont Número 8? Bem, acho que sim, pois, quando, certa vez, Carolina lhe perguntou, intrigada, se seus sonhos eram lúcidos, ele respondeu, sem muita certeza, que sim, talvez o fossem, ou pelo menos quase. Também me lembro, como se fosse agora, quando ela lhe questionou, assim como se questionasse a si mesma, “Será que somos nós mesmos que produzimos os sonhos (e os pesadelos) que sonhamos?” Bem, naquela época, ele não teve coragem de responder: “Não, isso é coisa da História e dos seus historiadores…” Mas, afinal de contas, eu mesmo me questionava: Quem é o dono dessa história então? Quem a escreve? E quem são esses historiadores? Ou melhor, quem é que me gera todos esses pesadelos?

E se outros mais (o que é bem provável) os sonharam também?

Que todas as honras e glórias sejam suas, Francisco Abayomi, agora e para todo o sempre assombrado pela unidade descendente de Hypnos, você que foi o primeiro, entre os primeiros, a cruzar esse misterioso oceano, o oitavo, que separa dos sonhos as palavras que os intuem e deles regeneram a realidade…

Sarcásticos e irônicos questionamentos certos pensamentos me fazem. Como aquela visão que com meus próprios olhos fechados tive (como um duplo de Endímion) dos livros que deviam ser abertos para que, de suas páginas, emergissem as histórias que novamente estavam prestes a ser contadas e a ganhar a vida que, em verdade, nunca deixara de existir, pois apenas adormecia, enquanto os livros permaneciam fechados. Pois agora os livros foram abertos e suas histórias serão contadas, produzindo sonhos e pesadelos que deverão ser assistidos: o sonho (ou o pesadelo) de dar asas ao homem, por exemplo, é um deles.

É possível que neste momento você mesmo ainda esteja sonhando, ou, quem sabe, eu é que sonhe que você esteja sonhando que eu sonhe que o nome desse personagem (poderia ser qualquer um de nós) seja Francisco Abayomi e que esta, também, seja a sua história, além da nossa própria, claro, sempre. Sendo assim, bons sonhos, então, para todos nós, que os acordamos e os escrevemos, assim…

Que toda história tem um começo, um meio e um fim pode ser certo, ou quase certo…  (Francisco Abayomi; Fragmentos de Diário.)


Pois eles, os sonhos, não terminam nunca – eles se reproduzem, insistem em voltar todas as noites nos assustando por sua mais absurda seqüência, conseqüência, recorrência e recursividade, porque assim é a História (essa lemniscata de nós mesmos) e é para isso que ela serve. Será que respondi à sua pergunta?

Por que você resolveu abrir este livro? O que te deu na cabeça, hein? Você não sabe que isso pode te fazer muito mal à saúde? Carolina Veríssimo não deixou de expressar um misto de angústia e preocupada reprovação com aquele verdadeiro bombardeio de perguntas…

O oitavo mar nunca antes navegado é o céu de Dédalo e Ícaro, por onde voarão pássaros e homens e flutuarão sonhos, os que sobreviverem a Nyx, a noite, avessa que é do 8, substância maior da qual o homem é feito: infinito.

Mas, meu Deus, é apenas um livro, o que isso pode ter de mais? Justificativas, eu sempre as buscava no óbvio, mas nem tanto: O que isso pode ter de mais?! Muita coisa, caramba! Ah, Abayomi, certas vezes você me parece tão sem noção…

Por que você resolveu abrir este livro, agora é a totalidade indivisível de todas as coisas, o rio fluente e constante, o fluxo e o refluxo de nossa consciência mais fundamental e profunda. Tentarei descrever, com o máximo de detalhes que conseguir perceber, as imagens que me chegam. Que me leiam, ouçam e compreendam aqueles que tenham olhos, ouvidos e pensamentos preparados para ler, escutar e se apropriar de um pouco das memórias que preciso compartilhar, pois dos sonhos não se deve ignorar os conselhos…

É possível, provável e justo que Carolina estivesse mesmo certa e que as coisas não fossem assim tão simples, como eu parecia querer fazer crer, pois, afinal de contas, existiam aquelas estranhas experiências, e, também, os frutos ainda mais estranhos delas…

No centro do salão que abriga a Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, a história continuará a ser contada. Inesperadamente, de uma de suas imponentes estantes, um livro será derrubado e aberto…

O problema nunca esteve nos acontecimentos em si, mas no uso que se poderia fazer deles…

E assim, mergulhado inexoravelmente no passado, nesse conceito enganoso dos calendários que se alimentam de fatiar o tempo, no cair da tarde do oitavo dia, do oitavo mês, do ano cuja soma dos algarismos tem como resultado 8, um diário será reencontrado, algumas de suas palavras serão lidas… “La fin du Santos-Dumont Número 8… O fim do Santos-Dumont Número 8… O que eu vi e o que nós veremos é apenas o meu sonho que se realiza…” E um pensamento será pensado… “Seja bem-vindo, aproxime-se, pegue uma cadeira, sentese, abra o diário, leia-o, assista-lhe, e faça com que todas essas coisas aconteçam novamente…” Tudo estará interconectado…

Pois dentro de minha cabeça os tempos se encontram e, juntos, são capazes de promover rememorações do passado e, por mais incrível que possa parecer, do presente e até do futuro…

Segundos de um profundo silêncio, mais eloqüente do que qualquer possível e imaginável combinação de letras, palavras ou frases, em qualquer das mais diversas línguas do mundo, serão percebidos e, com angústia, daquele silêncio, que antecederá o “cair da ficha”, advirá suspense, tensão e, com certa exasperação, fruto do próprio desnorteio gerado, um destino será questionado. E não pouco questionado…

O que se origina no futuro atravessa inapelavelmente o presente, mergulha inexoravelmente no passado e, de algum lugar do lado de lá, retorna, imprevisível como as pessoas, imprevisível como as superstições e como certos dias que parecem não querer terminar nunca mais…

Como um outro destino fora questionado dois anos antes, quando, de olhos bem fechados, Abayomi acordara e começara a sonhar com os livros. Certos livros também sonham quando são acordados por Abayomi que os sonha, que o sonham… Então, Abayomi abre os livros e acorda, fazendo todas aquelas coisas acontecerem novamente…

Tenho a impressão de que já sonhei isso antes, enquanto fechava meus olhos e acordava, tal e qual Francisco Abayomi, que deverá então, a qualquer momento, abrir os olhos e responder (por mim mesmo) a Carolina, mas com uma outra pergunta, assim como se perguntasse também a si mesmo “A propósito, superstições só trazem má sorte? ”

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