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Assombrado por Hypnos Elevado ao cubo

Alterar o passado

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Alterar o passado

Eu dormia, mas o meu coração velava. (Cantares de Salomão. 5:2)

Quando Apollinaire Mont Thabor olhou à sua volta, notou que o aposento em que se encontrava tornava-se esfumaçado, espectral e transparente e, em seu lugar, materializou-se uma cena do passado distante. Sabia que estava lá, Bénerville, 8 de agosto de 1914. Quando olhou mais atentamente, as informações sobre aquele cenário começaram a fluir em sua mente.

Apollinaire era capaz de adiantar as cenas, passando pelos eventos que aconteceram naquele aposento como se assistisse a um filme, selecionando cenas.

O script era sempre o mesmo: Apollinaire pegava nas mãos um objeto e se concentrava até o tudo ao seu redor e seu próprio corpo tornarem-se sombrios, esfumaçados, quase inexistentes. Relaxava, adormecia, entrava, então, em um estágio de consciência mais alto: o sonho lúcido.

Depois da transição, ele começava a assistir a um filme tridimensional do passado e com ele interagia, transformava-se em um oneironauta, um explorador de seus sonhos. Era possível ir para qualquer ponto no tempo e no espaço da cena, dar um zoom em qualquer aspecto, elemento que chamasse sua atenção, como se um controle remoto existisse dentro de sua cabeça.

Qualquer um que observasse Apollinaire em tais momentos perceberia que enquanto, de olhos bem fechados, ele assistia ao passado, por baixo das pálpebras, seus olhos se movimentavam em todas as direções, controladamente, como se as coisas que estivesse descrevendo em seu transe tivessem uma presença física. Uma vez lá, ele poderia andar para trás e para frente até se orientar, e então começaria a descrever mentalmente o que via, gravava em seu próprio cérebro aquelas imagens. Normalmente, era um processo recorrente, até obter a melhor descrição e o melhor registro.

A própria idéia de poder alterar o passado ou os eventos já acontecidos era uma noção ainda muito incerta, pois o próprio Apollinaire, às vezes, duvidava do que percebia, provavelmente por estar tão profundamente programado para acreditar que o passado, de fato, estava congelado, como uma borboleta de vidro, como um bicho empalhado, estático, definitivo, e seria difícil imaginá-lo de outra maneira.

Mas todas aquelas experiências que ele vivera nos últimos mais de 20 anos eram contundentes e faziam-no crer em um universo paralelo no qual o tempo era apenas uma das tantas ilusões, e a realidade não seria mais do que uma imagem criada pela mente, pela sua própria mente. Era uma possibilidade com a qual ele tentava se acostumar: A mente pode ser capaz de alterar o passado também?

Algum tempo depois, as imagens desapareceram e a visão do aposento voltou ao normal. Abriu os olhos lentamente. Olhou suas mãos. Levantou com cuidado o objeto… “Funciona… D’accord… D’accord…”

Sua visão remota foi evocada quando ele tocou o objeto que no dia anterior roubara de um museu. Seria esse objeto que finalmente lhe possibilitaria acessar ao momento certo no passado para conseguir executar seus planos. Agora tinha certeza. A visão remota de Apollinaire foi evocada quando ele tocou o escrínio dourado, protegido pelo Ícaro alado, contendo o coração de Santos-Dumont.

O E-MAIL

Olhando à distância, quase tudo parece bastante aprazível ou, no mínimo, suportável. De perto, nem tanto… às vezes, até mesmo assustador… Nesses últimos anos, eu não tenho tido alternativa a não ser aproveitar a noite. Bons sonhos. Carpe Noctem. E compartilhar, quando possível, minhas inusitadas experiências.

Naquela manhã de quarta-feira, 18 de outubro de 2006, a professora Ariadne Bosch mal acabara de clicar no ícone do seu software de correio eletrônico e uma janela instantaneamente saltou na tela do seu computador:

Você recebeu uma nova mensagem!

Adivinhando de quem seria (ela já sabia dos problemas que comecei a ter desde que passei a ler o tal diário), ela então mirou o ponteiro do mouse na pequena janela, deu dois cliques e pôde ler, apesar de ainda não conseguir compreender muito bem o que aquilo tudo significava.

De: Francisco Abayomi.
Para: Ariadne Bosch.
Assunto: Mais um daqueles pesadelos.
Enviada em: qua 18/10/2006 06h25min.

Ariadne,
Acabei de acordar de mais um daqueles estranhos pesadelos. Não sei o que está acontecendo comigo, mas tenho quase certeza de que é este diário. As imagens continuam chegando como ondas e eu não consigo evitá-las. Eu tento, mas não consigo evitá-las.

Você pode não acreditar, mas eu estive lá. Sim, eu tenho certeza. Era muito real para não ter sido verdade. Minha cabeça dói, e muito. Li mais uma vez o diário, eu o tenho lido compulsivamente e, disso não tenho dúvidas, eu estive lá, mais uma vez. Ariadne, você tem que acreditar em mim. Ajude-me por favor, não vou conseguir resolver isso sozinho.

Continue pesquisando. Você mesma tem visto que coisas muito estranhas têm acontecido nos últimos dias. Preciso saber o que isso tudo significa, do contrário, acho que vou ficar louco. Essa noite,foi ainda mais estranho e assustador. E antes que todas aquelas imagens, tão reais, chegassem, eu me vi em um quarto completamente vazio e fechado. Sem portas ou janelas. Sentia-me asfixiar. Mas era tudo um grande pensamento. Tentei gritar e o grito saiu surdo. Tentei me mexer e não conseguia. Aos poucos sentia que podia enxergar através das paredes que iam se dissipando como uma cortina de nuvens, esfumaçando-se à medida que meus pensamentos deixavam de se concentrar naquele problema: uma morte iminente por asfixia. Um quarto sem portas e sem janelas, mas de paredes que esvaeciam e convertiam-se em fumaça cada vez menos densa. De repente era como se, dentro de minha cabeça, palavras começassem a ser escutadas, e elas contavam histórias, gerando combinações aparentemente aleatórias de tramas que, pouco a pouco, chegavam como que transferidas de algum lugar diretamente para os meus pensamentos, que sentia, no fundo, não serem meus. Não conseguia entender, mas, procurei me concentrar e foi então que eu tive a consciência de que estava no meio de um pesadelo. Aquilo era apenas um sonho.

Olhei para meu corpo e ele era quase da mesma densidade do que eu via nas paredes à minha frente. Olhei minhas mãos, que também se dissipavam. Por instantes, um silêncio angustiante se fez presente, e além das palavras agora eram números chegando e ainda agora, neste momento, continuam frescos em minha memória… 8, 8, 1, 9, 1, 4… Subitamente, um imenso túnel negro abriu-se bem embaixo dos meus pés e me senti tragado, assustadoramente tragado…

Bènerville-sur-mer, França.
Sábado, 8 de agosto de 1914.

As trancas da porta da entrada principal foram arrebentadas a pontapés e o observatório particular de Santos-Dumont arrombado e invadido por uma tropa de choque de oficiais do exército francês. Nos olhos de cada um daqueles homens habitava a fúria cega e a incerteza que o medo e o ódio geram.

Era um ansioso entardecer do verão europeu de 1914, na ante-sala da Primeira Guerra Mundial. Em cada uma daquelas cabeças jovens, prestes a ter todos os sonhos ceifados para sempre, residia um único objetivo, encontrar as provas que confirmariam as denúncias de que aquela localização era de fato um ponto de espionagem do inimigo. Seus olhos enxergariam apenas o que quisessem, enxergariam apenas o que comprovasse aquela verdade pré-assumida.

Naqueles dias, o chauvinismo faria de qualquer estrangeiro um suspeito, até que se provasse o contrário. O pânico era uma sombra da ansiedade. Eram dias difíceis, mesmo para um Cavaleiro da Legião de Honra da França, como Alberto Santos-Dumont, agraciado com aquela comenda em março de 1905, que naquele instante estava prestes a ser detido sob a acusação de colaboracionismo com a Alemanha do Kaiser.

Naqueles dias, qualquer um poderia ser visto como um potencial inimigo à soberania do Estado francês. O general Vaissière era o comandante da tropa que, naquele momento, invadia o pequeno observatório de Santos-Dumont em Bènerville. Abayomi podia notar, sentir mesmo, inexplicavelmente, naquele estranho sonho lúcido, a ansiedade que transbordava, descontroladamente, dos poros de Vaissière, que não parava de repetir, aos berros, que seus homens revistassem tudo.

As imagens continuavam chegando em vários níveis e dimensões, e Abayomi não sabia como fazê-las parar. Sentia como se sua cabeça estivesse prestes a explodir. Era uma testemunha ocular que podia sentir e processar em sua mente diversos tempos que fluíam paralelamente, e não linearmente. Várias cenas e cenários discorriam estranhos discursos aos seus sentidos, todos ao mesmo tempo. Abayomi percebeu o grande susto que Alberto Santos-Dumont – ele mesmo, não tinha dúvidas – levou ao escutar aquela balbúrdia no momento em que realizava, no terraço da pequena residência no litoral do Canal da Mancha, seus, até então não imaginados polêmicos, estudos de Astronomia. Francisco Abayomi olhava estupefato para um telescópio alemão da marca Zeiss, o principal motivo de toda aquela confusão, quando os barulhos começaram a chegar, mais ensurdecedores, da parte de baixo da casa, praticamente ao mesmo tempo em que o inventor era surpreendido por um grupo de três ou quatro oficiais, sendo levado à presença dos outros que estavam no cômodo principal.

Em um piscar de olhos, Ariadne, eu também estava lá…

— Senhores, o que está acontecendo? Santos-Dumont, assustado, perguntava, exasperando-se ao não receber respostas. Debatia-se em uma vã tentativa de compreensão da situação surreal em que de repente se via. Aquela barulheira infernal e a cena de pesadelo que ele encontraria no andar de baixo realmente eram inacreditáveis.

Santos-Dumont, atordoado, estupefato, ainda buscava uma resposta. Um dos soldados, sem maiores explicações, de forma truculenta, imobilizava o inventor que, franzino, não conseguia esboçar uma reação.

Fiquei revoltado, Ariadne. Mas não pude fazer nada. Vaissière, enlouquecido, continuava insistentemente berrando a seus comandados que queria as provas…

Santos-Dumont assistia, amarguradamente, à cena em que seus pertences eram devassados e destruídos, suas maquetes quebradas, seus livros rasgados, suas gavetas remexidas. Aquela visão, em sua mente já atormentada e cansada, devia revestir-se de uma tensão inimaginável.

Eu mesmo já não estava agüentando. Mas sentia que estava além de minhas possibilidades interferir…

Seu corpo tremia descontroladamente. Em determinado momento, fora jogado em um canto. Segurou sua cabeça como se quisesse arrancá-la com as duas mãos.

Notava-se que seu pavor crescia em ondas até às raias da loucura.

— O que vocês querem? De que estou sendo acusado? Gritava, acuado.

— O senhor está sendo acusado de ser um colaborador da Alemanha do Kaiser. Respondia, aos berros, Vaissière.

— Eu?! Um espião do Kaiser?! Mas isso é um absurdo! Vocês não me conhecem?

Era um diálogo tenso, Ariadne, será que estou ficando louco? De repente, uma névoa branca me cegou a visão e era como se as cenas tivessem mudado. Como se o cenário tivesse mudado. Uma passagem de cenas, uma espécie de fade in e fade out. Ariadne, às vezes tenho a impressão de que certos sonhos são tão estranhos que parecem não ser sonhados por nós mesmos e que certos dias parecem nunca terminar…

Hoje, observando-se aquelas cenas caladas, congeladas nos tons de cinza de fotos já desgastadas pelo tempo, percebem-se dias de incerteza. A mesma incerteza que pulsava “descompassadamente” na memória de Francisco Abayomi. Aquela experiência era mais contundente que todos os conhecimentos científicos. Os dias eram difíceis, durante algum tempo a Europa vivera sob a insegurança de uma paz armada e na iminência de um inevitável grande conflito.

European War, Grey River Argus , 13 August 1914

Em 3 de agosto, a Alemanha do Kaiser Guilherme II declarava guerra à França e as tropas alemãs avançavam rumo a Paris. Desde as chamadas guerras napoleônicas, nenhum outro conflito assumiria proporções tão grandiosas e nefastas como o que estava prestes a começar. O que se veria seria o horror no canto do cisne da Belle Époque. Muitas das ilusões seriam perdidas para sempre. Muito do tempo seria perdido para sempre. O triunfo da ciência sobre a natureza pelo bem-estar da raça humana se desintegraria, pouco a pouco, em meio a bombardeios e genocídios.

Dentro da cabeça de Francisco Abayomi, aquela voz ensurdecedora provocava… “Você não se rende à evidência do fato consumado, e me enfastia com seus apelos à Natureza! Será que o homem realizou algum dia um verdadeiro progresso que não fosse uma vitória sobre ela? ”

Agora era ele que levava as mãos aos ouvidos. Como se quisesse fugir de si mesmo. Como se quisesse fugir da sombra metálica da torre de Gustav Eiffel, de um quase indestrutível Titanic (aquele que nem mesmo Deus seria capaz de afundar), como se quisesse fugir do admirável mundo novo, da comunidade, da identidade e da estabilidade (uma possibilidade na produção em série, estranha… muito estranha, de Ford), como se quisesse fugir do homem-submarino e do homem-pássaro, de todos aqueles fantasmas e outros mais criados como sombras do homem mecânico. Desde então, passamos a ser assombrados por essas desumanas medidas do homem: “de que vale todo desenvolvimento tecnológico se o homem não é a medida e o fim dessas coisas? Armas de guerra eficientes e cruéis tornaram-se esses recentes frutos da tecnologia. Von Richthofen, Roy Brown, René Fonck, ah, essa audaz e suicida juventude e suas mortais armas voadoras!” Aquela voz gargalhava na cabeça de Abayomi!

Os aviões escreveriam um capítulo à parte naquela era de tantos avanços tecnológicos. Em 1911, os italianos, na chamada Crise de Trípoli, o usariam contra os turcos pela primeira vez na história, como arma defensiva e ofensiva de guerra, e este demonstraria ser uma eficiente máquina assassina.

Mas o seu verdadeiro batismo de fogo aconteceria a partir de 1914. Como vários outros artefatos na História adquiriram propósitos inversamente proporcionais às finalidades primeiramente pensadas, o avião demonstrava, uma vez mais, que a humanidade tem seus limites, inclusive o de atrocidades, demarcados apenas por sua própria imaginação.

A denominada “guerra-para-acabar-com-todas-as-guerras” trouxera a devastação nos campos de batalha. O genocídio amparado pela tecnologia. O conflito de 1914 nascera de uma crença ingênua de que seria uma guerra breve. Durou quatro anos. Com o armistício assinado em 11 de novembro de 1918, o saldo final do conflito deixaria um número de mais de nove milhões de mortos a partir do envolvimento de mais de 30 países. Sem dúvida, como sabiamente Abayomi pressentia, certos dias insistem em não terminar.

Nos indefinidos dias de Bénerville-sur-mer, cidadezinha ao sul da França, Alberto Santos-Dumont, inventor brasileiro, 41 anos, convivia, ou pelo menos tentava, com um diagnóstico precoce da esclerose múltipla. Uma doença que sentia matá-lo aos poucos.

Todo o entusiasmo daquelas épocas em que cruzava os céus de Paris parecia não fazer mais sentido algum. Sua alegria de viver parecia esvair-se tão desbotadamente quanto as fotos que registraram aqueles espetaculares feitos heróicos do bandeirante dos ares, um apelido recebido de Thomas Alva Edison.

E agora, essa suspeita imbecil de que fosse um espião de Guilherme II, o poderoso Kaiser alemão.

Não serei um novo Alfred Dreyfus!Impossível para Alberto, naquele momento, não se lembrar do caso Dreyfus. O repercutido Dreyfus Affair, um escândalo político que dividiu a opinião pública na França por vários anos.

Alfred Dreyfus, judeu, oficial de artilharia do exército francês, era de fato inocente. Mas, em 1894, julgado por acusação de espionagem, foi condenado e deportado para uma prisão na Ilha do Diabo a 43 km de Caiena, capital da Guiana Francesa. Somente em 1906, depois de 12 longos anos, provada a sua inocência, Alfred Dreyfus seria reintegrado às forças armadas ao receber a Ordem da Legião de Honra do Estado Francês. Agora, era um telescópio o motivo de acusação a mais um estrangeiro.

Em 1911, já aposentado de suas atividades aeronáuticas, Alberto Santos-Dumont resolveu mudar-se para Bènerville-sur-mer, nas proximidades do Canal da Mancha.

Lá, passou a dar asas ao seu especial interesse pela Astronomia. Certamente uma sublimação de sua paixão pelos segredos celestes, que o levaria a instalar um telescópio nos terraços da residência em Bénerville e outro na Encantada, seu chalé de Petrópolis, cidade serrana no estado do Rio de Janeiro.

Quase diariamente ele podia ser visto observando os céus, as estrelas e o mar da costa sul-francesa. Um verdadeiro perigo naqueles dias. Descrente do seu futuro, passou, inclusive, a duvidar do julgamento da História, tão bem sintetizado naquelas elogiosas palavras de Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac em relação aos seus feitos: “São os primeiros passos. Os outros virão depois. Não há horizonte fechado à ambição humana. Daqui a pouco, o homem não se contentará com o poder pairar perto da Terra, quererá desaparecer na vastidão gloriosa”.

Em uma outra vastidão etérea e misteriosa, a do imaginário humano, seus vizinhos de Bénerville passavam a acreditar que aquele indivíduo taciturno, reservado, esquisito, ensimesmado, estaria, na verdade, coletando informações sobre a posição dos navios franceses na costa e repassando-as aos alemães.

Abayomi estranhamente parecia ouvir os pensamentos de Santos-Dumont, “Meus papéis, onde estão meus diários? Preciso destruí-los!”

A espionagem, desde o caso Dreyfus, ainda era uma ferida aberta na alma do povo francês. Errava-se, posto que seja humano, e insistia-se no erro outras tantas diversas vezes. A guerra era um demônio que precisava ser exorcizado, e estava presente na alma e no medo coletivo.

Marcel Proust, ilustre morador da quadra entre as avenidas Thuias e Transversale, número 2, no Pére Lachaise, constatara, no olho do furacão daqueles tempos perdidos, que a verdadeira viagem do descobrimento não consistiria em ver novas paisagens, mas sim, ver as mesmas paisagens com novos olhos. Os infalíveis olhos da alma. Quando os jornais da época, como o brasileiro Jornal do Commercio, os franceses L’Illustration, La Nature e Le Matin ou o americano New York Herald, entre tantos outros, publicavam matérias como “O Senhor Santos-Dumont não deseja construir aeroplanos para vender”; “Não requererá patente”; “Põe o modelo à disposição de todos” talvez não se imaginasse que os ventos do litoral em breve soprariam trazendo tempos difíceis, tempos de incerteza, e o cheiro da morte e do fim das ilusões de toda uma época. Mas isso estava além de todas as vontades que Santos-Dumont pudesse ter. Aquelas acusações que sofreu, no final, não deram em nada. O mal-entendido logo seria desfeito. Alguns pertences confiscados naquele dia nefasto, em que as tropas invadiram sua casa, foram logo devolvidos. Mas aqueles momentos de extrema amargura só pioraram sua já debilitada saúde mental. Os pedidos formais de desculpas provenientes do governo francês foram completamente ignorados, pois o estrago literalmente já estava feito. (Souza-Soares; Comentários.)

Naquele entardecer, durante a verdadeira devassa a que a residência de Santos-Dumont foi submetida, os soldados franceses destruíram tudo o que viram pela frente na busca desenfreada por indícios que comprovassem as suspeitas, o que de fato não aconteceu.

Mas aquela experiência fora, para Santos-Dumont, a definitiva materialização de seus pesadelos. Tal qual o grito surdo da loucura em uma tela de Edward Munch, outros gritos, os das vozes ansiosas, abafadas de todas as incertezas, ecoavam e reverberavam em sua cabeça, misturando-se às imagens mentais dos demônios que o atormentavam. Tenho medo de ficar louco. Ele ainda me persegue. Preciso descansar, meus nervos estão muito cansados. De fato, o pavor da guerra, dentre vários outros pavores, chega antes.

Alberto, na maior parte das vezes, parecia enxergar o futuro de seu tempo. Assim, há muito já havia adquirido o hábito de planejar de forma meditada todas as etapas necessárias para a realização de seus projetos. Outro hábito também adquirido era o de anotar por escrito as suas idéias ou as coisas que lhe parecessem dignas de registro e reflexão. Naquelas horas difíceis, uma idéia advinda dos pesadelos pulsantes de uma psique enferma tornava-se fixa e embaçava sua razão, cegando seus sentidos.

Ele, que documentava como ninguém seus dias de glória, lembrou-se dos diários e demais registros de seus projetos e memórias. Sua depressão, o lastro de sua maníaca aeronave, o engolia e desencadeava uma cisma maluca. Naquele momento, sentiu a dor lancinante da loucura. Em frases desconexas, andava atormentadamente de um lado para o outro e se repetia conselhos sem sentido. A ansiedade e o desespero tinham encontrado sua morada. Pensamentos confusos de perseguição misturados com os efeitos da descarga energética de adrenalina elevam a níveis quase insuportáveis uma hipertensão. Seus olhos estavam vidrados e sua fúria era destruidora.

Ele, que tentara reescrever a história de uma forma diferente através de uma visão mais romântica da tecnologia e da ciência, entendeu à força que, como tudo em termos de humanidade, cada invento humano adquire vida própria, para além de seu criador, para além de seus prós e contras. Fora tocado pelo fogo que limita a genialidade da própria loucura. O fogo purificará! Somente o fogo purificará! Daquele momento em diante ele seria o inventor maldito. Aquele que inventara a invenção maldita. Aquela que, por ele, doravante, seria considerada um instrumento supérfluo e de utilização, sobretudo, beligerante. O fogo me purificará!

Enquanto isso, uma sensação ainda mais estranha tomava conta de Abayomi, o pressentimento de que mais alguém, além dele, observava Santos-Dumont naqueles tensos momentos na escuridão. Mas Abayomi não conseguia ter uma visão nítida. O que percebia era algo como uma interferência visual, um borrão que tomava uma esmaecida forma humana na escuridão, como que espreitando o cenário e seus personagens, misteriosamente, sorrateiramente, sombras por trás das sombras, olhos que não eram enxergados observavam aquelas cenas delirantes guiadas por um discurso angustiado, um diálogo entre Santos-Dumont e o próprio desespero que o desatinava.

Aquela aparição ora guardava uma hesitação, ora intencionava tomar alguma atitude e fazer alguma coisa, talvez, para evitar que aquela história encerrada e retratada, tão bem retratada, em seus diários e demais documentos, fosse perdida e negada às gerações futuras.

Naquele momento havia algo de irascível no inventor. E le se transformava em um predador de si mesmo. Uma ave de rapina cheia da intenção de roubar-lhe o próprio passado, futuro e o futuro de seu futuro. Diários, anotações e demais documentos: tudo alimentava as labaredas purificadoras da lareira onde ele colocava, uma a uma, as memórias de uma vida inteira. Santos-Dumont estava completamente perdido em pensamentos e idéias obscuras. Atormentado pela insegurança, hesitou por alguns instantes. Mas já havia julgado e condenado a si mesmo a uma fogueira inquisitória. Àquele espetáculo infernal, assistia desprovido de sentimentos.

Deu de ombros, olhou ao redor, era um olhar vazio. Por um momento, Abayomi teve a impressão de que Alberto também podia vê-lo ali em sua própria e completa estupefação. Porém, desviou seu olhar vazio, embotado, buscando uma luz para seu próprio destino. Fitava as chamas que se alimentavam de sua própria história. Uma história que era derretida aos poucos, como foram derretidas as asas ingênuas e vaidosas de Ícaro.

O que eu podia fazer, Ariadne? Nada. Exatamente nada. Ou será que podia? Sinceramente, não sei. Não tenho certeza alguma. Estou realmente muito confuso. Ou com medo, não sei… De que maneira, eu poderia interferir? Continuei apenas observando, quase sem respirar, o momento em que ele deu as costas à importância daquela situação e lentamente, anestesiadamente, como que desconectado da realidade (e isso me soa tão sarcástico agora), seguiu em direção ao seu quarto.

Então, aquela interferência que tomava a forma assustadora de um imenso borrão negro espreitou o ambiente como um todo. Era estranha aquela visão que Abayomi não tinha. Até enxergava o cenário esmaecido com alguma nitidez, mas tinha apenas uma impressão, que não era nada boa, daquela personagem que por ali se esgueirava, locomovia, sinuosamente.

Abayomi não entendia exatamente o que estava acontecendo. Mas parecia a ele, que aquela situação já fora vivida outras vezes, mais de uma vez (talvez, em um outro cenário?); alguma coisa era tão estranhamente familiar e ao mesmo tempo não o era. Aquela estranha e embaçada silhueta humana aproveitara para avançar até a lareira, parar por instantes à sua frente, observar com alguma atenção o que lá estava a se perder em cinzas e, de repente, como que despertando para a gravidade da situação, ou por alguma coisa que tenha identificado dentro daquela lareira, de maneira desesperada, tentou recuperar alguns documentos, ou o que fosse possível do que praticamente já se encontrava destruído. O grito gutural, assustador e abafado pôde ser ouvido nos céus de Bènerville. Mas como aquilo seria possível? Abayomi entendia cada vez menos o que acontecia.

A sinistra aparição girava a cabeça para todos os lados, ansiosamente. Aquela figura era estranha e sinistra em seu modo de averiguar a situação ao seu redor. Tudo para Abayomi era, de fato, muito estranho. Mas isso foi apenas uma gota no seu oceano de perplexidade.

Dias depois, Santos-Dumont retornaria para o Brasil. Provavelm ente, sem saber o que havia acontecido naquele longínquo dia de verão em 1914. O último verão europeu. Certas aventuras a história não conta mesmo e permanecem em segredo até que alguém decifre seus códigos.

Aquela misteriosa e sinistra figura, sob o olhar assustado de Abayomi, permanecera ainda por algum tempo olhando paralisada o fogo que purificava, antes de estranhamente começar a dissipar-se lentamente, tornar-se uma névoa, leve, transparente, invisível, saindo pela janela em direção à praia. O que fora aquilo que acontecera bem diante de seus olhos?

A inquietação de Abayomi era enorme. O que aquela sinistra figura pretendia?

Abayomi não sabia o que, muito menos entendia naquele instante e estado, mas sentiu-se tentado a imaginar que poderia ter alguma relação com o diário que Ariadne lhe entregara… São tantas as perguntas que tenho, Ariadne. E tão poucas respostas…

Há pouco mais de um mês, quando fora convidado para estagiar na Biblioteca Nacional, Abayomi teve oportunidade de conversar com Ariadne sobre suas pesquisas a respeito dos inventos de Santos-Dumont. Por uma incrível coincidência (se é que elas realmente existem) comentou que, para cada um de seus inventos aeronáuticos, Santos-Dumont documentara detalhadamente suas idéias, seus esquemas e suas respectivas execuções. Achava-se que todos aqueles documentos haviam sido queimados em 1914, na época em que Santos-Dumont fora perseguido por causa das acusações de espionagem para o Kaiser. A ausência desses documentos, sem dúvida, deixara imensas lacunas nas pesquisas de seus estudiosos e biógrafos. Agora, depois de um suposto delírio recorrente das duas últimas noites, Abayomi parecia adquirir uma estranha certeza de que, enquanto se queimava para, abnegadamente, tentar recuperar aqueles diários esquecidos de Santos-Dumont, aquela figura estranha certamente sabia o que estava fazendo. Sim, aquela atitude guardava algum propósito, o qual Abayomi ainda não sabia, mas conjeturava…

O que aquela figura sinistra também parecia constatar, naquele incerto momento em que fitava com imensa incredulidade as chamas na lareira que rapidamente consumiam todos aqueles papéis, o levava a dar aos seus pensamentos uma voz gutural, distorcida, que emergia de sua própria surpresa. Abayomi não entendia como, mas conseguia escutar aquela voz dentro de sua cabeça, “Meus conhecimentos sobre Monsieur Santos-Dumont, de fato, agora, parecem ser puramente superficiais”. Abayomi e a aparição eram tão diferentes, mas pareciam tão inesperadamente interconectados.

O que Abayomi não conseguiu perceber diante de sua completa estupefação foi se aquela estranha criatura, antes de ter sumido, evaporado estranhamente, teve tempo de descobrir que nem tudo fora efetivamente perdido, já que também foi como um pensamento leve, nebuloso, distorcido, tão frágil quanto a própria consistência de sua imagem naquele momento em que se dissipava como névoa, que aquelas imagens sutis chegaram ao seu pensamento.

Pouco tempo depois, quando Santos-Dumont retornou àquele cômodo, trazia em suas mãos um caderno, que estranhamente fora poupado àquela fogueira purificadora.

Aquele caderno que Santos-Dumont salvara das cinzas e que, inexplicavelmente, trazia em sua capa um inesperado título.

Ariadne, era o tal diário! A capa era mais conservada, mais nova, mas tenho certeza de que era o mesmo diário. Eu o vi nas mãos de Santos-Dumont! O que é isso? O que está acontecendo comigo? Sinto como se isso não fosse parar tão cedo. Sinto também, mas sei que isso não faz o menor sentido, como se alguém precisasse de minha ajuda. Mas não tenho a mínima idéia do que fazer. Apesar de saber que devo fazer alguma coisa. Tenho que ir agora. Preciso sair um pouco para clarear as idéias. Mais tarde a gente se fala.

Estou cada vez mais intrigado…De que forma esse estranho diário foi parar no depósito da Biblioteca Nacional?

Abraços, F. A.

PS: Escrevi este e-mail longo demais, pois me faltou tempo para escrevê-lo mais curto… ;-)

Quantos dias poderão durar um único dia? Para Abayomi, as madrugadas não dividiam os dias, serviam apenas para que, a cada uma daquelas noites, desde que aquele diário fora parar em suas mãos, ele vivesse uma vida diferente, uma aventura diferente, em busca da verdade. Afinal de contas, Abayomi decidira aceitar que era o seu próprio acontecimento.

Enquanto isso, na Bènerville revisitada, o fluxo do passado…

Aconteceu de novo, quantas vezes ainda acontecerá? Não agüento mais isso tudo, como o futuro poderá tornar essa história diferente, desviar o fluxo? Por que essas coisas insistem em acontecer de novo e sempre dessa mesma forma?

Os pensamentos de Santos-Dumont repetiam, amarguradamente, desoladamente, ensimesmadamente, aquelas palavras angustiadas, enquanto um olhar incrédulo e desesperançado congelava-se na capa daquele diário, Mais uma vez eu tentei e mais uma vez fracassei, agora o que me resta é viver novamente tudo outra vez, de novo, e de novo. E daquele diário que caía de suas mãos, mais uma vez, podia ser lido, em sua capa, nitidamente, como sempre, o mesmo título…

“SANTOS-DUMONT NÚMERO 8”

Pois certos dias parecem mesmo continuar para sempre. Ora, e por que não haveriam de continuar? Se os cubos continuam sendo mexidos, remexidos, girados, é porque ainda não encontramos para eles uma configuração interessante. Por isso, devemos continuar tentando… seja no sentido horário, seja no anti-horário…

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