Elevado ao cubo
(01) Leia todas as seções devagar, com muita atenção, e procure não pular nenhuma delas. Execute as instruções em seu cubo e faça o possível para não ficar com nenhuma dúvida a respeito da seção “O Significado de Sentido Horário”. É importante, também, que você só mude de seção depois de ter compreendido por inteiro a seção anterior. Trabalhando assim, você conseguirá resolver o quebra-cabeça. Depois de algum tempo de prática, bastarão cinco minutos para fazê-lo voltar à configuração original. “Se nada mais der certo, recorra ao índice.” (Don Taylor; Nota do Autor; A solução do quebra-cabeça mais diabólico do século XX – o Cubo de Rubik)
(02) Como posso saber o que vou dizer a vocês? Ora, simplesmente, vivendo. Isso é o que caracteriza a perpétua evanescência do presente, porque vida é tudo aquilo que acontece enquanto escrevemos o livro da própria vida que vivemos. Se espio e observo, com atenção, a história que continua, eis que finalmente, entre fluxos e refluxos, dos pensamentos às palavras, que nunca esgotam as coisas, o livro vai se escrevendo, as primeiras frases vão aparecendo, saindo não sei bem de que vontade, onde?, e vão tomando forma nas páginas de um caderno (já que não consigo escrever aquelas palavras e frases em computadores, uma espécie de bloqueio tecnológico, talvez), porém, desde o primeiro instante que me veio essa idéia, “escrever a história” percebi que não é que aconteça aos homens o que merecem, mas o que se lhes assemelha, e por isso mesmo, agora entendo, seria inevitável que um dia eu tivesse de deixar de desescrever este livro, e abandonasse tudo, ou quase tudo, por isso.
(03) A primeira das coisas, ou idéia sobre as coisas, que eu abandonaria, seria a que eu tinha a meu próprio respeito. Obviamente, todos aqueles que estivessem à minha volta teriam muita dificuldade em entender o que se passava comigo, o que provavelmente também estaria escrito em algum outro lugar da obra, aquela que não estaria terminada enquanto o livro não fosse começado. Jamais os culparia, pois eu mesmo seria o primeiro a ter dificuldades em entender o que se passava, porque me sentiria como se me esvaziasse daquele livro, me tornando uma casa vazia, prestes a receber novos moradores: eles…
(04) Certo dia, então, depois de algum tempo de incertezas, eu, provavelmente, disse – talvez mais certo fosse, perguntei – a mim mesmo, não sem muita hesitação, sou um escritor? Pelo menos, um quase-escritor? Aceita aquela nova idéia (dúvida), tão velha quanto os pensamentos que me povoam as mesmas idéias de agora, nada à minha volta, definitivamente nada, mudaria, pois na verdade nada lá fora deve mudar; quem muda somos nós mesmos, e apesar de não querer perceber isso, eu já havia mudado, e conseqüentemente mudado o que estava à minha volta, sem perceber e sem entender como acontecia, ou me acontecia, já que não sabia, mas tentava, expressar através de palavras, faladas ou escritas, como se essas coisas que nos acontecem – e simplesmente acontecem mesmo – dependessem de nosso entendimento ou aceitação para acontecer.
(05) Eu, que sempre fora aquele que precisava, antes de tudo ver para crer, passei a entender a importância (quase sempre maior) de crer para ver. A vitória de Necker sobre Rubik? Não estou bem certo. Acho que caminham lado a lado: os cubos. Interdependentes.
(06) Caso um dia este livro seja publicado, que fique claro que é muito difícil saber com exatidão quando ele começou a ser escrito. Vez por outra, recolho aqueles fragmentos que escrevi – há quantos anos, mesmo? –, não me lembro, mas tento, vez ou outra, achar o local certo para estender a idéia, os fragmentos; quando um livro realmente começa a ser escrito? Mais, isso é um livro ou apenas os fragmentos de um pensamento desorganizado e ambíguo? Como os cubos de Rubik e Necker? Fragmentos, nada mais do que fragmentos…
(07) Até onde se pode considerar um Cubo de Rubik (muitos também o conhecem como Cubo Mágico) apenas um brinquedo? O Cubo de Rubik é uma espécie de quebracabeças, inventado pelo escultor, designer, engenheiro arquitetônico húngaro Ernö Rubik, lá pelos idos de 1974. Porém, com a mesma desconfiança daquela época, ainda me intriga até quando se pode considerar esse Cubo de Rubik apenas um brinquedo? Resposta difícil.
(08) Por fora, parece ser um bloco sólido composto de 26 minicubos, que se interligam engenhosamente, de modo que qualquer uma das camadas (de nove minicubos cada) possa ser girada em torno do centro sem que a peça toda se desmonte. O mecanismo interno é um pouco mais complexo do que um simples bloco de 26 minicubos.
(09) Os seis minicubos centrais (se os numerarmos, serão os números 05, 14, 23, 32, 41 e 50) ficam presos à coluna central do bloco através de eixos com mola; os 12 minicubos das bordas e os 8 das quinas têm ressaltos plásticos permitindo o giro das camadas sem que elas se desmontem. As faces visíveis dos minicubos que compõem a peça são quadrados coloridos; na configuração inicial, o Cubo de Rubik tem em cada face quadrados de uma única cor (verde, amarelo, branco, azul, vermelho e laranja). Girando-se as camadas, as configurações formadas por essas cores podem ser alteradas.
(10) O objetivo do quebra-cabeça é descobrir uma forma de movimentar esses minicubos de maneira que se consiga voltar à configuração original. O giro das faces do cubo não altera em nada a posição do quadrado central de nenhuma das faces.
(11) Importante: caracteriza-se uma face pela cor do quadrado central. Exemplo: a face vermelha é aquela cujo quadrado central é de cor vermelha. Os minicubos das bordas (com dois quadrados coloridos) não podem ser levados a uma quina e os minicubos das quinas (três quadrados coloridos) nunca podem ser levados a uma borda. Os nove minicubos da face superior formam a camada superior. Os nove minicubos da face inferior formam a camada inferior. Os 8 restantes formam a camada média.
(12) O Cubo de Rubik tradicional é uma versão 3×3x3. Mas existem outras versões de maior ou menor complexidade: a Rubik’s Revenge, ou a Vingança de Rubik, é uma versão 4×4x4; a Pocket Rubik, ou Rubik de Bolso, é uma versão 2×2x2. Existe também a Rubik’s Professor, uma versão 5×5x5.
(13) O cubo original, o de 3×3x3, pode chegar a ter 43.252.003.274.489.856.000 (ou aproximadamente 4,3 x 10 elevado a 19) posições diferentes. Apesar desse número assombroso de posições, o Cubo pode ser resolvido em menos de 29 rotações.
(14) Considero qualquer uma de suas soluções (que são diversas, tendo inclusive preenchido páginas e mais páginas de vários livros), que envolvem, necessariamente, um passo a passo discreto, algorítmico, um típico caso de “ver para crer”.
(15) Eu passava dias e dias tentando resolver o quebra-cabeça. Apesar de, com o passar do tempo, conseguir, cada vez mais rápido, voltar à configuração inicial aquele estranho e enigmático Cubo de Rubik misturado, ainda hoje não tenho certeza de que tenha conseguido resolver o verdadeiro quebra-cabeça. Aquele mistério que se esconde e nos envolve, aquela estranha sensação de que nossa vida mesmo deve ser configurada para que faça algum sentido…
(16) Cubos da face superior formam a camada superior… cubos da face inferior formam a camada inferior… os restantes formam a camada média…
(17) É como se passássemos o tempo todo vivendo com um cubo mágico nas mãos girando suas faces, buscando entradas e saídas, configurações interessantes, mas que em nada alteram a posição de certos quadrados, os centrais – entende? – aqueles em cada uma das faces (as diversas que vestimos) que representam nossas existências…
(18) Face vermelha: quadrado central vermelho; face amarela: quadrado central amarelo, e assim por diante…
(19) Será que é desse jeito que te enxergo, Carolina? Um processo lúdico, sem dúvida, já que em determinados momentos da vida é preciso fazer escolhas de coração, ser o que se é e não o que nos querem fazer ser? Santos-Dumont decidiu ser o que queria fazer e a isso geralmente chamam a busca pela realização de um sonho. Mas que sonho (ou pesadelo?) é esse que nos persegue, Carolina?
(20) Deixar-se ver apenas pelos olhos com que o mundo nos olha é transformar-se em um Cubo de Rubik, mexido, remexido, orientado por mãos alheias que buscam nos moldar do jeito que a elas convier, seguindo uma solução, passo a passo, de manual de instruções. Não, Carolina, somos mais do que isso. Temos algo de Necker quando nos olhamos no espelho e nossa imagem real vem e vai, como o brilho da água em mar agitado, refletindo a luz da lua.
(21) Os cubos existem e devem ser montados; esses quebra-cabeças devem ser resolvidos, focalizados, como Santos-Dumont resolveu criativamente aqueles de Hargraves. Não é simples (ninguém jamais sugeriu que o fosse), e, antes, escolhas devem ser feitas, em todos os momentos.
(22) Estaremos a cada momento de nossas vidas lutando para sermos nós mesmos diante de um mundo e de uma história cujo objetivo será sempre o de nos corromper, nos reduzir ao pó de que de fato somos feitos: nada, nos reduz ao nada…
(23) Mas tudo é inconstante, assim como os Cubos de Necker, e complicado, como os de Rubik (apesar de existirem mapas que os tentem solucionar facilmente – como se fossem à base de aspirina, entende?) e transcendentes, como os “Cubos” de Santos-Dumont, que o elevam ao cubo…
(24) Este livro (o que um dia deixarei de desescrever) deverá ser um “Rubik-Necker”, que deverá ser caminhado, rotacionado e interpretado. Se muito misturado ou organizado, não se sabe ainda ao certo de que forma estará, pois isso depende mesmo de como se manuseará o cubo-objeto-livro, e de como suas partes-inteiras serão focalizadas também.
(25) O primeiro passo nesse caminho, o primeiro movimento de rotação, a primeira idéia a ser interpretada, envolve, na verdade, a escolha de uma opinião. Logo, pergunte a si mesmo: você é ou não é supersticioso?
(26) Abayomi pensa que, como dizem por aí, o Santos-Dumont Número 8 não existiu por causa de uma superstição de Santos-Dumont com relação ao número 8 (o dois elevado ao cubo). Porém, pressente algo diferente.
(27) Isso é apenas mais uma de minhas opiniões ou, antes, uma escolha, porém, é certo que escolhas envolvem pelo menos duas opções…
(28) Por isso, ao livro físico que aqui se constrói, com o início na primeira página e o término na última (podemos incluir também a capa e a quarta capa, claro), o que também não passa de opinião, vários outros livros lógicos devem se sobrepor. Pelo menos dois serão os mais visíveis: o primeiro livro (prefiro enxergá-lo como um cubo, aos moldes do de Rubik) será intitulado “Ver para crer”. O segundo (um Cubo de Necker), o chamarei “Crer para ver”; começará a partir de qualquer uma das configurações propostas para as peças ou capítulos que o comporão.
(29) Fazer com que todas essas peças sejam movimentadas, rotacionadas, como um “Rubik”, formando um cubo de faces de cores únicas, completas, em posição relativamente correta, significa também antecipar que várias são as alternativas de solução, ou interpretação, vários são os caminhos que podem ser percorridos e…
(30) Várias são as escolhas que podem ser feitas; uma delas envolve a escolha (a segunda, nessa seqüência) de outra opinião: para você, quem de fato inventou o avião? Santos-Dumont (capítulos verdes, amarelos, azuis e brancos) ou os irmãos Wright (capítulos vermelhos, azuis e brancos)? Este livro, como se vê, ou se verá, é (ou será) um cubo mágico que pode ser resolvido de várias maneiras, pois apresenta alternativas, e, no fundo, compreende vários outros cubos…
(31) Se nada mais der certo, existe sempre uma última alternativa: recorra ao índice! Uma terceira e última escolha: ao ler o livro, siga linearmente, página após outra, ou, se preferir, siga os links (ao final dos capítulos).
(32) Lembre-se, a escolha é sua, e se nenhuma dessas opções lhe agradar, siga a sua própria seqüência, ou seja, navegue o livro e desta forma navegue-se, pois navegar-se é preciso, sempre.
(33) Muito boa sorte, então, a todos nós, navegadores de nós mesmos e de tais fragmentos e manias, como, por exemplo, a de achar que esses cubos são insolúveis…
(34) Como resolver os cubos? Faça-se a seguinte pergunta: sou supersticioso? Pense um pouco, tenha uma opinião e decida a lógica a ser seguida a partir do seguinte algoritmo:
Se “sou supersticioso”, então, “devo começar pelo Primeiro Cubo”. Se “não sou supersticioso”, então, “devo começar pelo Segundo Cubo”. Em outro caso qualquer, por que não “recorrer ao índice”?
(35) Outras opções? Claro, as mais variadas. Que tal seguir aquela suposta seqüência de numeração dos capítulos ou, em última instância, seguir uma outra seqüência (ou história) qualquer que você mesmo inventar?
(36) E essa mania então que eu tenho de querer me surpreender? Certamente, ainda vai me surpreender um dia. O que me faz ficar olhando disfarçadamente através de um espelho, não para me ver, mas para acompanhar indiretamente sua aproximação, lá ao fundo, Carolina e Carolina?
(37) Disfarço minha expectativa, guardando meu sorriso para sua mais próxima chegada. Mas não seria preciso nenhum tal artifício ou subterfúgio, eu sinto sua presença no ar que respiro e me toca levemente a pele, levemente, quase imperceptível, misticamente, como um número 23, aquele que está em todo lugar, sem que o percebamos, pois a vida é o que acontece enquanto escrevo o livro. Na verdade, tenho a impressão de que é a própria vida que se escreve e nos escreve. Paralogismo? Enquanto penso um pouco mais sobre isso, deixe-me continuar escrevendo a história, então… (Souza-Soares. Fragmentos de Diário.)













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