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Elevado ao cubo Tesouros adormecidos

Um trágico incêndio

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Um trágico incêndio

(01)“O sancta simplicitas! Que simplificação, que falso ponto de vista o homem põe em sua vida! Não há como não ficar muito surpreso ao abrir os olhos diante dessa maravilha! Como tornamos tudo claro, livre e fácil em torno de nós! Como soubemos dar a nossos sentidos livre acesso a tudo o que é superficial, a nosso espírito um elã divino para travessuras e paralogismos! Como, desde o início, soubemos conservar nossa ignorância para desfrutar de uma liberdade apenas compreensível, para desfrutar da falta de escrúpulos, da imprevidência, da bravura e da serenidade, para desfrutar da vida! E é unicamente sobre essas bases, desde então sólidas e inabaláveis, da ignorância, que a ciência pôde se edificar até o presente, a vontade de saber na base de uma vontade muito mais poderosa ainda, a vontade da ignorância, da incerteza, da mentira! Não como seu contrário, mas como seu refinamento.” (Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal.)

(02)Biblioteca Nacional. Terça-feira, 2 de outubro de 2006.

(03)E então, um ano e meio havia se passado desde aquele trágico incêndio que por pouco não destruíra a Biblioteca Nacional, no mês de abril de 2005. Quase totalmente recuperada, ela abrira novamente suas portas ao público há poucos meses. Era início do mês de outubro, ano de 2006, e Francisco Abayomi chegava para seu primeiro dia de estágio. Mal podia acreditar que, finalmente, poderia recomeçar sua vida, exatamente do ponto em que fora interrompida, por dois longos anos…

(04)“BIBLIOTHECA NACIONAL”

(05)Leu a placa de aço, assim mesmo, como àquela construção se referiam e como haviam grafado seu nome, por ocasião de sua re-inauguração, em 29 de outubro de
1910, 25 meses depois de Joaquim Maria Machado de Assis e vários anos antes dele mesmo, Francisco Abayomi, que ali permanecia parado ante a entrada principal do prédio situado na Avenida Rio Branco, número 219, coração arritmicamente econômico da cidade do Rio de Janeiro.

(06)Extasiava-se com a arquitetura e decoração caracterizadas pelo estilo eclético, uma mistura de elementos neoclássicos e Art Noveau em ornamentos de artistas como Visconti, Henrique e Rodolfo Bernardelli, Modesto Brocos e Rodolfo Amoedo, que fazem do prédio, em conjunto com o Museu Nacional de Belas Artes e o Teatro Municipal, um inestimável conjunto arquitetônico cultural carioca e nacional.

(07)Embevecido pelas linhas sóbrias e leves da visão proporcionada pelos desenhos dos vários postes clássicos, cada qual com cinco lustres cuidadosamente ornamentados, Abayomi, assim como a própria fachada da Biblioteca, sentiu-se protegido pelos leões da cultura. Parou por instantes à frente do pórtico com seis colunas coríntias, que sustentam o frontão ornamentado por um grupo em bronze, tendo ao centro a figura da República, ladeada por alegorias da Imprensa, a Bibliografia, a Paleografia, a Cartografia, a Iconografia e a Numismática. Avançou lentamente como que a perceber a inspiração irradiada pelas duas estátuas que se erguiam à frente de cada um dos hemisférios do imenso e cinzento cérebro alegórico: o Estudo, uma estátua de bronze, criada por Rodolfo Bernardelli, à frente do hemisfério esquerdo, representado por um senhor idoso entre seus livros e anotações; e, a Inteligência, outra estátua de bronze, esta de autoria de Corrêa Lima, à frente do hemisfério direito, uma beleza feminina a ser cortejada e conquistada.

(08)Ultrapassou as imensas portas de aço esmaltado na cor negra, com representações metafóricas da escrita e da leitura, e se viu no hall da entrada principal, diante dos painéis e das esculturas da Sabedoria e da Ignorância. Naquele instante, Abayomi sentiu uma espécie de pressentimento. Aquela simbologia da evolução transcorrida, perpassada, ao navegar-se pelos arquétipos imersos nos dois grandes hemisférios daquele cérebro de concreto, soou-lhe como um aviso. Intrigado, Abayomi seguiu pela escadaria central de mármore. No patamar do lance de escada entre o segundo e terceiro andares, avistou o busto, também em mármore de carrara, de D. João VI, esculpido em Roma em 1814, por Leão Biglioschi, que também havia pertencido à Real Biblioteca Portuguesa, a origem das origens da Biblioteca Nacional, destruída por um incêndio que se seguiu ao terremoto de Lisboa, em 1º. de novembro de 1755.

(09)Abayomi procurava por Dona Ella que, após mais de 20 anos de trabalho na instituição, conhecia como poucos a alma daquele lugar e estava encarregada de recebê-lo e conduzi-lo às suas tarefas. Francisco foi apresentado por Dona Ella a Ângela, outra antiga funcionária, que demonstrava, em cada palavra e gesto, o poder que aquele lugar tinha de conquistar um espaço especial no coração de todos os que ali trabalhavam.

(10)Ângela o levou para conhecer outros funcionários, estagiários e colaboradores das áreas ligadas aos diversos setores. Por eles, Abayomi foi informado de que, como centro nacional de informações bibliográficas e documentais, a Biblioteca Nacional atuava sem fronteiras, disponibilizando seu acervo a pesquisadores presenciais e remotos, do Brasil e do Exterior, atendendo em seu prédio-sede a cerca de 20 mil usuários por mês.

(11)Percebendo seu entusiasmo, Ângela sugeriu a Abayomi que fizesse uma visita guiada pela instituição. A primeira começaria pontualmente às onze horas; além disso, era importante que ele conhecesse logo, de uma forma geral, o funcionamento de cada setor. Pontualmente, às onze da manhã, o guia começava…

(12)“Sejam bem-vindos à Biblioteca Nacional. Inaugurada no Brasil, oficialmente em 1810, ainda como a Real Biblioteca, e re-inaugurada neste prédio 100 anos depois. Com cerca de 300 funcionários, a BN, como popularmente é conhecida, é a oitava biblioteca do mundo e a maior da América Latina. O prédio fabuloso, com uma área de aproximadamente 13 mil metros quadrados, foi projetado para armazenar até um milhão de volumes, capacidade que ultrapassamos já faz tempo. Dessa forma, parte do acervo escoou para um prédio anexo, localizado em um silo do velho Cais do Porto, na Avenida Rodrigues Alves, adquirido, através do Ministério da Cultura, no final da década de 1980…”

(13)Abayomi estava maravilhado com as possibilidades que se abriam à sua frente.

(14)“Esta é a Sala Ramiz Galvão, de Obras Gerais e Informação Documental, o maior salão da Biblioteca. Acima desta sala está localizado o armazém, composto por um conjunto de imensas estantes, exatamente acima de nossas cabeças. Nelas, as obras catalogadas ficam guardadas. Para uma consulta, a obra é localizada, retirada do armazém e colocada no monta-cargas, este elevador à nossa esquerda. Ele liga o armazém ao balcão principal do salão…”, detalhava o guia, e Abayomi não tirava os olhos de todos os detalhes, e com seu caderno de anotações ia tomando notas e mais notas, que, de tão detalhadas, talvez até possibilitassem a reconstrução fidedigna daquele ambiente todo, caso isso fosse novamente necessário…

(15)No início do mês de abril do ano de 2005, todos foram surpreendidos com a grave notícia…

(16)“Incêndio na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Duro golpe para o patrimônio da humanidade.”

(17)Um incêndio atingira o prédio principal da Biblioteca Nacional na noite de terçafeira, 5 de abril, destruindo mais de 60 mil obras. O dobro do previamente estimado. Um duro golpe para a cultura nacional.

(18)Naquela tragédia, o presidente da Fundação Biblioteca, Baltasar Steiner, fora inexplicavelmente a única vítima fatal. O laudo médico dera asfixia como causa mortis. Mas o caso não ficara muito bem explicado. As chamas irromperam pela Sala Rodolfo Garcia, na qual funciona a Divisão de Referências e Periódicos, atingindo parte do museu, onde se encontra a Divisão de Iconografias, a Sala Aluísio Magalhães. Focos também foram identificados no armazém, e o Setor de Manuscritos foi praticamente todo destruído.

(19)Segundo as autoridades, uma falha no sistema elétrico seria a causa possível do início das chamas. Mas alguns vestígios, muito estranhos, não conseguiram ser explicados. A possibilidade de ter sido uma ação terrorista não foi totalmente descartada. Mas até hoje não houve uma avaliação conclusiva, definitiva dos fatos.

(20)Os danos podiam ter sido muito mais graves. Era opinião comum entre os funcionários que tiveram de sair às pressas do prédio naquela noite trágica. Poderia ter sido uma tragédia muito maior. Muitos alertas já haviam sido dados durante os vários anos de existência da biblioteca que, tal qual Fênix, precisaria novamente ressurgir das suas próprias cinzas.

(21)Os primeiros focos do incêndio apareceram no Setor de Manuscritos e no subsolo da Biblioteca, próximo às salas dos antigos depósitos. “Ninguém costuma ficar zanzando por aquela área”, muitos funcionários da biblioteca repetiriam nos dias seguintes. “Achamos que aquela área não é tão bem-assombrada assim.”

(22)Tais declarações provinham das diversas lendas que costumavam rondar o imaginário dos que diariamente trabalhavam na biblioteca. Seriam mesmo as tais lendas? Segundo elas, grandes escritores (os falecidos, é claro) ainda podiam ser vistos caminhando pelos corredores da biblioteca, confabulando sobre a Obra eterna.

(23)Também era comum se comentar sobre os espectros daqueles convidados relacionados para o lançamento da pedra fundamental da Biblioteca Nacional em 15 de agosto de 1905, cujos nomes foram gravados a fogo em um pedaço de couro, que logo depois fora colocado e enclausurado em uma urna de aço enterrada no terreno sobre o qual foi erguido o prédio da Biblioteca Nacional. A urna ainda se encontra sob o prédio da Biblioteca Nacional depois de todos esses anos, e por isso, dizem, ainda mantém presos naquele ambiente todos aqueles fantasmas, com a promessa premonitória de que um dia, num futuro talvez não muito distante, retornarão à luz, com uma lembrança ainda nítida daqueles dias no passado…

(24)No incêndio, além do acervo perdido (incluindo as várias fotografias de Marc Ferrez, August Stahl, Guilherme Liebenau, Benjamin Mulock, a gravura Cascade de Tijucca, datada de 1835, do alemão Johann Moritz Rugendas, que literalmente evaporaram), muitas obras foram gravemente danificadas pela água e fumaça, dissera à imprensa o vice-presidente da Fundação mantenedora da biblioteca. Mas as providências para a recuperação do prédio e do acervo logo foram tomadas.

(25)Aquela noite fora de superação. Os meses que se seguiriam também. Centenas de funcionários e voluntários formaram uma corrente humana para a recuperação de várias obras valiosas, como a primeira edição de Dom Casmurro, de Machado de Assis, a famosa Bíblia de Mogúncia, uma Bíblia latina, datada de 1462, e a Edição E de Os Lusíadas, datada de 1572, com aquele, agora tão profético, verso: “E entre gente remota edificaram…”

(26)O rápido acionamento e a conseqüente chegada dos bombeiros contribuíram para que o desastre não fosse maior. A biblioteca ficaria fechada ao público por vários meses. Somente em casos graves como esse se justifica tal situação. Um genuíno patrimônio do povo deverá estar sempre acessível a todos os brasileiros. Era a opinião geral de todos que meses a fio acompanharam as obras de recuperação do prédio e do acervo.

(27)E muita criatividade fora necessária para que a recuperação, apesar de ainda não ter sido completa, pudesse rapidamente colocá-la de novo em funcionamento ao seu público. Entre as várias idéias propostas e colocadas em prática estava um passeio virtual pela biblioteca. A BN tornava-se, assim, uma biblioteca sem fronteiras físicas. Filmagens tridimensionais dos ambientes em panoramas de 360 graus haviam sido feitas antes mesmo do sinistro acontecimento. Foram feitas novas tomadas, posteriormente integradas às já existentes, de forma que podiam ser feitas comparações da biblioteca antes e depois do incêndio. O passeio virtual pela internet tem atraído visitantes de várias partes do mundo.

(28)Naqueles dias difíceis, Abayomi também passava por uma superação. O fogo interno o purificava. Naqueles dias, ele estivera fora do tempo e do espaço em dimensões que não eram comuns. Abayomi não tinha alternativa a não ser levantar a ponta do véu. Tudo acontecera enquanto ele dormia, enquanto ouvia a voz do nada. Mas aqueles pensamentos ainda continuavam a ser reproduzidos como profecias auto-realizáveis. Sua alma ouvia, recordava e respondia. Onisciente. Abayomi precisava silenciar seus pensamentos para que pudesse voltar e fundir todos os sentidos em um só para se proteger de seu grande inimigo, aquele que ainda não havia mostrado sua face…

(29)“Pelo menos agora o diário está destruído… finalmente… é… mas o Senhor Bevilácqua não ficará nada satisfeito… bem, mas, dane-se…”

(30)Certa manhã, Apollinaire Mont Thabor abriu os olhos e apesar de certa satisfação pelo dever cumprido não conseguiu esconder sua ansiedade. Suado, taquicárdico, mais intrigado do que assustado com aquele sonho, não conseguia apagar de sua memória aquelas dúvidas…

(31)“Ele me viu? Sim. Ele me viu. Eu sei que aquele rapaz me viu… Mas, como? Quem é ele?”

(32)Na cabeça de Apollinaire rezava a certeza de que aquela não seria uma figura que pertencesse àquele cenário…

(33)“Mas de onde ele terá vindo? De quando?”

(34)Tentou, com algum esforço, apoiar-se na cabeceira da cama, e olhou fixamente suas mãos… largou sobre a cabeceira da cama o lenço quadriculado que havia pertencido ao próprio Santos-Dumont.

(35)“Será que não consigo mais ter controle sobre os meus próprios sonhos?”

(36)E outra pergunta também parecia não querer se calar dentro de sua cabeça…

(37)“Será que agora as coisas acontecerão de forma diferente?”

(38)Ele não conseguiu destruir o diário com suas próprias mãos. Mas isso pouco importava agora. Mont Thabor sabia que agora ele não existia mais, e isso era o que interessava. Bom, pelo menos assim Apollinaire pensava, apesar de ainda lhe faltarem evidências.

(39)Se, por um lado, não conseguira capturá-lo na origem, em 1914, Apollinaire agora sabia que o próprio Santos-Dumont lhe facilitara o serviço. Depois da busca no tempo uma outra deveria ser realizada no espaço, em seu próprio tempo e espaço, apenas para que não pairassem dúvidas no ar… o que havia se dissipado? “Mas não é que aquele diário existia mesmo? Mas é claro, Apollinaire, você viu com seus próprios olhos, que pensamento idiota…”

(40)Apollinaire aparentemente se decidira pela melhor das opções, apesar de todas as lendas a respeito dos diários esquecidos de Santos-Dumont. Não tinha a menor dúvida, somente encontrando aquele diário poderia ter a chance de dar prosseguimento aos nefastos planos do sr. Bevilácqua. Mas Apollinaire tinha propósitos maiores. Os seus próprios propósitos pessoais. Mas agora outra pergunta, fora tantas outras na cabeça de Apollinaire, insistia em martelar o seu cérebro. “Quem seria aquele estranho rapaz?”

(41)Apollinaire tinha a estranha impressão de que já o conhecia. Era como se fosse uma espécie de familiaridade desfocada. O mais estranho de tudo isso é que Apollinaire vinha acordando e desacordando desse atordoado sonho recorrente desde uma manhã cinzenta parisiense de agosto de… 1996.

(42)Mais uma vez, como sempre há mais de dez anos, Apollinaire via aquela mesma história se repetindo e repetindo. Aquele mesmo rapaz como uma espécie de coadjuvante na cena trágica daqueles momentos incertos.

(43)Apollinaire também se sentia incerto e sua incerteza era a mais contundente, tinha-a como missão (cumprida ou não cumprida?), mas nem sempre fora assim, pois há alguns anos ele vinha tentando encontrar a brecha no que considerava a sua chance de reformatar o destino, seu próprio destino. Agora, com o coração de Santos-Dumont em seu poder, as chances aumentavam consideravelmente. Mas muito tempo se passou até que ele pudesse ter uma resposta para suas perguntas.

(44)Antes disso, ininterruptos processos de downloads e uploads seriam continuados,idas e vindas no tempo e no espaço seriam necessárias. Pois, afinal de contas, certos dias parecem mesmo continuar para sempre. Dias aparentemente normais como outros quaisquer. Dias como, por exemplo, 16 de outubro de 2006…

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