Tesouros adormecidos
(01) A Biblioteca Nacional é o lugar onde os tempos se encontram e, juntos, são capazes de promover a rememoração, a ocorrência e a premonição. (Eduardo Portella)
(02) Existem diversos tesouros adormecidos nas bibliotecas. Estão lá, adormecidos, à espera de quem os desperte (o esquecimento não perdoa jamais, sabia?), à espera de quem os faça recordar de si mesmos… de nós mesmos, como se nos quisessem convencer de que se trata de coisa do destino. Então, Abayomi começou seu estágio. Certo, isso já sabemos. O que ainda falta contar é que duas semanas mais tarde, imerso no meio de uma pilha de livros e periódicos empoeirados, Abayomi, totalmente absorto, em tarde carioca e quente (como tantas outras tardes cariocas e quentes) do centro da cidade do Rio de Janeiro, seguia vivendo suas desconfianças; as mesmas que, de inevitáveis, enganariam a qualquer um, eu, você, inclusive a ele próprio…
(03) Às vezes, sinto-me estranho, como se a vida andasse em círculos. Sempre aquele eterno retorno ao início da jornada. Deve mesmo ser este o tão apregoado e misterioso sentido da vida. Dar voltas e mais voltas, até ficar tonto…
(04) Porém, naquele momento, em seu mergulho introspectivo, Abayomi, mesmo ainda tão pensativo, não imaginava o que de sua história se escrevia, assim como se escreve o escrever, futuro de si mesmo, e certo talvez seria dizer que, se imaginava é porque desconfiava, pois no fundo todos nós sempre desconfiamos, o que por direito ou fato não sabemos descrever ou escrever; e como era sua imaginação que o fazia agir, mais até do que sua própria vontade, algo bem contundente, sem dúvida, não tão diferente do que ele insistia chamar eterno recomeço, todas aquelas coisas estavam prestes a acontecer de novo…
(05) Porque era tão fácil para Abayomi perder o contato com a realidade default por alguns instantes, ele lembrou do sonho estranho que tivera naquela mesma manhã. Aquela sensação estranha de déjà-vu. Ele não saberia dizer com certeza se já sonhara aquele sonho outras vezes, mas tinha essa impressão, e de tanta impressão, ficou impressionado, claro.
(06) Por isso, já não enxergava os livros à sua frente, nem ouvia os sons à sua volta, fora transportado para um outro mundo, para um outro estágio de sua própria consciência, onde seus pensamentos pareciam ganhar vida e materializar-se.
(07) Sabe aquele mundo dentro de sua cabeça? Aquele mundo dentro de sua cabeça que seus próprios pais costumavam chamar privilegiado… entende?
(08) Aquele que com o passar dos anos foi ficando cansado e sentou-se à beira do caminho… esperando que um dia, de repente, você volte para mim… para nunca mais querer se levantar de lá… “preciso acabar logo com isso…” e contemplar as novas paisagens… “e lembrar que eu existo…”
(09) O que o mesmo Abayomi não entendia, naquele tempo, era o que aquela palavra, existência, significava. Sabia que não significava pouco, e nem o pouco do pouco que ainda mantinha seus olhos presos aos livros que não mais enxergava ou ainda não o sequer de dúvida que a mudez lhe calava.
(10) Mas as outras (de outras e tantas outras) palavras, como destino, por exemplo, significavam para Abayomi o que denominaria todas aquelas coisas que aconteciam em sua vida e para as quais ele não conseguira uma explicação lógica e detestara, assim como sempre detestara quaisquer dos tipos de contradição, no que talvez não estivesse assim tão desacompanhado. Destino… des… tino… o desjuízo… o desconhecimento… a desprudência… o descuidado… a desidéia… a desintuição…
(11) Deixando por instantes de dar tanta atenção àqueles seus pensamentos, Abayomi sentiu-se observado. No que olhou para o lado, Carolina Veríssimo, também estagiária na área de classificação e seleção do Setor de Intercâmbio e Doações da Biblioteca Nacional, carinhosamente, colocou a mão direita na boca de Abayomi, tentando moldar-lhe um riso.
(12) Aquele que com o passar dos anos de Abayomi, tentando moldar-lhe um riso.
(13) — De novo no mundo da lua, não é mesmo, Francisco?
(14) Abayomi, que toda vez que olhava Carolina, morena Carolina, principalmente aqueles olhos sensuais de Theda Bara que ela tinha pintados de negro, os quais lhe faziam sentir-se meio que hipnotizado, até abobalhado, imaginava escutar daquela morte árabe tímida e sedutora, coisas do tipo Beije-me seu tolo! Abayomi sentia-se de fato um tolo perto da exuberância de Carolina…
(15) — É possível…, Abayomi não conseguiu balbuciar mais do que poucas sílabas, deixando o resto para as reticências…
(16) — … e é provável… e justo também. Não é mesmo Abayomi?, completaria, de pronto, Carolina.
(17) — Isso mesmo… É o que me faz sentir um pouco mais confortável, respondeu, meio sem jeito, Abayomi, sem poder deixar escapar um leve sorriso…
(18) — É, pode ser. Mas vê se não dá tanta bandeira, né? Olha só o que você tem aí na sua mesa e também à sua volta. Vamos trabalhar um pouco? Espirituosamente, insistia a bela Carolina…
(19) Abayomi balançou a cabeça abruptamente, como se quisesse apagar aqueles pequenos fantasmas de sua mente, coçou a testa de uma forma já meio condicionada e, querendo livrar-se daquele devaneio, estalou os lábios, meio contrariado consigo mesmo, esfregou os olhos, com as bases das palmas das mãos, olhou à sua volta e viu os outros estagiários concentrados em seus respectivos trabalhos, tal qual ele mesmo, justiça seja feita, quase sempre também assim estava.
(20) Abayomi sublinhava, mentalmente, a palavra CONCENTRAÇÃO, escrevendo mentalmente a idéia mais resumida possível de um lado ao outro da página do livro que lia sem que pudesse entender o que contavam as entrelinhas. Mas há vezes em que Abayomi parece meio desligado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, ora, por que razão deve se enganar? Ah… Como Carolina é linda… Agora, Abayomi se distraia por causa de um outro pensamento, e há quase cinco anos ele conhecia Carolina e mesmo depois desse tempo todo ele ainda não tivera a coragem de confessar o quanto ela representava para ele; apesar de que dois desses cinco anos não contavam ou até deviam contar, pois talvez tivessem sido os mais importantes porque mesmo naqueles dois últimos e difíceis anos ela não o abandonou. E, agora, Carolina ainda fazia de tudo que ao seu alcance estivesse para ajudar Abayomi a reintegrar-se à rotina, ao seu tempo, à sua própria história, interrompida abruptamente naqueles dois últimos anos.
(21) Por isso ele acreditava que Carolina também sentia algo de especial por ele. Mas, e se estivesse confundindo as coisas? Era possível e provável, afinal ele ainda podia estar confuso, como a relação entre o clima e as estações do ano, nesses últimos anos… E talvez ele mesmo estivesse confundindo as tais estações, mas ainda tentava se convencer do que talvez não precisasse… Será? Pouco provável. Antes de eu entrar naquele turbilhão, já sentia algo muito especial por ela…
(22) Balançava assim uma vez mais a cabeça para que aqueles pensamentos se dissipassem e pudesse retornar à pilha de livros (Livros! Livros! E mais livros!). Eles estão em todos os lugares, em sua mesa, em sua cabeça, em seu destino. Quando concentrados no trabalho, aqueles olhos de Abayomi eram olhos astutos e ansiosos que passavam os dias percorrendo lombadas. Seu polegar esquerdo, nervoso, folheava intermináveis exemplares de livros e periódicos antigos, separando-os e classificando-os. Anotava, conferia, apagava e anotava de novo: Nossa, como este é pesado. Deixe-me ver o título… Voyage Pittoresque et Historique au Brésil. Autor: Jean Baptiste Debret. Ano de publicação: 1839… E anotava em seu pequeno e inseparável caderno azul de notas… Encaminhar para o Setor de Raridades de Iconografia… Mais uma última folheada e… pronto, este está resolvido! Bem, vamos ao próximo…
(23) Nas estantes e nos arcazes de aço esmaltado datados do início do século passado que o rodeavam, servindo de moldura misteriosa e até asfixiante, a uma sala mal iluminada, algo como uma grande e empoeirada estufa, séculos de palavra escrita pareciam ofegar-se nos seus ares pesados e abafados. Conhecimentos e saberes passados de geração para geração velavam Abayomi e o aconselhavam de vez em quando. Sua mãe lhe dissera, certa vez, que seu nome, de origem africana, significava alegre encontro.
(24) Naqueles dias, quase dez anos depois daquela morte desastrosa que ela sofrera, a mesma a que, estupidamente, se juntara o seu pai, aquilo tudo soava-lhe como uma grande traição do destino, e por isso revoltava-se. Revolta inútil, no fundo ele sabia, apesar de toda aquela tristeza que ainda sentia todo santo dia desde aquele trágico mês de outubro de 1996. Menos, provavelmente, no período dos últimos dois anos em que ele mesmo quase se juntara aos pais do lado de lá do espelho.
(25) Mas, Abayomi sobreviveu para contar a história. Apesar de todos os maus presságios, que sempre o rondaram e de vez em quando se materializaram à sua frente, sobreviveu.
(26) E era quase uma necessidade que ele tinha de contá-la. Chegara a outubro de 2006, contava 22 anos de idade, seus olhos eram presentes, mas também muito distantes, como as ondas que ultrapassam a areia da praia e estouram no calçadão, em dias de ressaca. Olhos presentes e distantes como talvez o fosse sua própria alma, no presente, ansiosa pelo passado. Na aparência, seus cabelos, assim como os de quase todos os jovens de sua idade, eram organizadamente desorganizados, despenteados, fosse pelo efeito do gel ou mesmo por não terem sido penteados mesmo. Por quê? Não importava. Para quê? Não importava também. São apenas questões que ele mesmo levantava, rispidamente, quase sempre levemente mal-humorado. Talvez fosse uma forma de se defender da própria imprevisibilidade das pessoas. Cabelos castanhos e despenteados e, completando o estilo, um piercing na sobrancelha direita, argolas nas orelhas e certo ar ainda juvenil, apesar de tudo, enfeitado de roupas largas e quase sempre de cores escuras. Uma ânsia de liberdade na expressão de uma personalidade deslocada, certas vezes taciturna, destoante e distante de sua própria imagem refletida nos olhos de quem o observa.
(27) Estudante universitário, Abayomi seguia cursando História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Durante a semana, assistia às aulas no campus do Centro da Cidade, no prédio do IFCS, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, localizado no Largo de São Francisco, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Uma vez por semana, ele se deslocava ao campus da Praia Vermelha, para um dos prédios da antiga Universidade do Brasil, onde estava inscrito em algumas disciplinas da área de Educação.
(28) Provável que concluísse seu curso em um ano e meio, ele vinha se dedicando com afinco, ainda mais depois dos dois últimos anos literalmente perdidos por causa daquele episódio trágico que quase lhe custara a vida… a vida que Abayomi resgatara da sua própria capacidade e vontade de viver.
(29) Todos os dias ele continuava tendo sonhos terríveis em que revivia aqueles momentos de angústia. Em um imenso vazio e um nada profundo, dois anos haviam se passado, e ele acostumara-se a toda imprevisibilidade a que sua vida está exposta. O tudo e o nada eram possíveis e apenas uma questão de oportunidade dividia a sutil fronteira entre ambos.
(30) Quando surgiu a oportunidade de estágio na monumental e fantasmagórica Biblioteca Nacional, ele não teve como pensar duas vezes. Sequer sabia, antecipadamente, em que setor trabalharia; não tinha a menor idéia naquele momento, porém, isso era o que menos importava. Ele pressentia que no final tudo daria certo – apesar de tudo, de todos e, certas vezes, dele mesmo – e sabia o quanto precisava desse certo. Era como se ele tivesse nascido para aquilo, conversar com o passado, de onde, aparentemente, sentia-se pender, amarrado, prestes a ser puxado de volta, sem avisos, a qualquer momento.
(31) Sua figura arredia protegia-se por um olhar penetrante e uma mente veloz, sedenta de saber e alimentada por um raciocínio absurdamente lógico. Muito apropriado foi ter ido trabalhar no Setor de Intercâmbio e Doações. Para quem gostava de devorar livros (nem sempre foi assim, você se lembra Abayomi?), mesmo que ainda no fundo de seu pensamento ainda houvesse uma leve desconfiança do quanto aquilo podia fazer mal à sua saúde, Abayomi sentia como se agora fosse possível unir o útil ao agradável, e se alimentar daquela atmosfera de cumplicidade dos livros, histórias, destinos, caminhos, resgates, memórias, encontros, desencontros e reencontros no palácio do Estudo e da Inteligência: a Biblioteca Nacional, o lugar onde os tempos se encontram e, juntos, são capazes de promover a rememoração, a ocorrência e a premonição, gostava de repetir, mentalmente, aquelas palavras do acadêmico Eduardo Portella a respeito da própria BN e as repetia como se buscasse um significado ainda maior para elas, um significado para além da semântica mais óbvia, pois sentia – talvez, no fundo, até tivesse certeza –, que aquela sentença significava mais do que um belo aforismo. Talvez tenha sido por causa desse sentimento que Abayomi passou a carregar, desde a primeira vez em que botou seus pés lá dentro, um outro inusitado pressentimento: o de que estava novamente em casa.
(32) Do Setor de Intercâmbio e Doações, os itens, devidamente relacionados, são direcionados para a triagem, onde as obras são analisadas, categorizadas e selecionadas por uma grande e dedicada equipe (Francisco Abayomi e Carolina Veríssimo fazem parte dessa equipe). Da triagem, as obras classificadas como raras seguem, caso necessário, para o Laboratório de Restauração, na Divisão de Conservação e Restauração, e lá lhes é dado todo o tratamento técnico de restauração para seu acondicionamento ao acervo da Biblioteca Nacional.
(33) Nesse laboratório, que atende às divisões de obras raras, manuscritos, periódicos, iconografia e música, vários profissionais técnicos costumam estar tão concentrados dentro de suas luvas de borracha e máscaras brancas, com seus pincéis e ferros de passar, tesouras, durex e colas sobre pranchetas brancas e luzes geladas, mortas, espectrais, direcionadas sobre antigos periódicos em processo de restauração para que logo depois possam ser microfilmados, que o ambiente fica com uma atmosfera quase hospitalar (que me parece até ter saído de um livro de Aldous Huxley), alguma coisa assim como um hospital de livros e periódicos. Outras obras vão direto para o setor de catalogação; algumas delas, depois de passarem pelo setor de historiografia, são também classificadas e levadas para setores apropriados.
(34) A coordenadora da Dinf, a Divisão de Informações Documentais, é Ariadne Bosch, jovem doutora, professora titular do Departamento de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na qual Abayomi e Carolina estudam. Sendo dois de seus melhores alunos, ela própria os havia indicado para o estágio na Biblioteca Nacional. Em parte também porque não podia deixar e notar e admirar seus perfis nada comuns para aqueles dias de tecnologia na ponta dos dedos.
Jovens que se interessavam, e da forma como se interessavam, pelo papel, pela fonte original, pelas letras em estado bruto, embaçadas e, às vezes, quase ilegíveis dos livros e periódicos antigos.
(35) Abayomi, principalmente, e além de tudo, demonstrava que poderia se tornar, pelo seu esforço, um grande pesquisador, uma vocação que parecia mesmo ter nascido com ele, que de forma “criminosa” insistia em autodenominar-se um “quase historiador”.
(36) Carolina, por sua vez, possuía uma capacidade incrível para trabalhar com os números. Datas, valores, quantidades e porcentagens, por exemplo, nada escapava à sua meticulosa análise. Nem os símbolos e as cifras. Carolina tem certa fama de esotérica e fala muito em astrologia, numerologia, e outras tantas “gias” que por sua necessidade de saber a verdade (como Abayomi) ainda haveriam de arrastá-la para muitas aventuras, como muito em breve constataria.
(37) Os olhos de Abayomi, sempre sedentos de informação, construíam, a partir de seus questionamentos constantes, redes de conhecimento que se integravam e interligavam novas abordagens e novos questionamentos que, por sua vez, engendravam novas redes e assim por diante. Aquela diversão parecia nunca ter fim. Pelo menos aparentemente, ali não existia aquela estranha dor que há muito o acompanhava.
(38) O interesse pelas aventuras da história, apesar de hoje parecer que sempre esteve lá, absoluto, há alguns anos estivera dividido por um certo distanciamento na tecnologia, porque Abayomi, naqueles dias, achava que o contato com as pessoas era muito, muito difícil mesmo, e também porque sua alma de homem-tecnológico, que escolhia provar de seu tempo e parecer-se mais com ele do que com seus próprios pais, clamava pelo que de ciber-tudo aparecesse e houvesse. Sintonizava e dava o fora… Abayomi tinha, por sua própria natureza, facilidade de gerar um fluxo contínuo de conhecimento construído em cima do existente, fosse a partir dos livros, fosse a partir do software. Entendia que cada sociedade tem suas próprias formas de pensar e que na nossa era tecnológica o software é uma representação de seu conhecimento e uma forma dessa sociedade buscar conhecer a si mesma. Nesse sentido, Abayomi achava sua própria época muito parecida com a Belle Époque, fosse pelas descobertas, pelo avanço tecnológico ou pelas ilusões adquiridas e perdidas. Por essa razão, talvez, ele se sentisse tão atraído por ela, por aquele passado que estranhamente parecia querer puxá-lo de volta para lá.
(39) Das ferramentas de busca e enciclopédias digitais, Abayomi tomava de volta o caminho dos livros, caminho à primeira vista inverso, dissidente, como outros antes dele também tinham sido acusados e etiquetados. Menos prático? Talvez, mas a praticidade pode não ser sinônimo de conteúdo, e conteúdo é rei.
(40) Quanto conhecimento, quantas histórias encerradas em páginas, por décadas, sequer abertas. Mistérios e vicissitudes, objetos de desejos, virtudes, conforto e confrontos, verdadeiras terapias de autores e leitores. Um dos projetos especiais da Biblioteca Nacional (Abayomi participava dele), ainda em fase experimental, era a digitalização de diários datados do século XIX. Os que conseguiram ser salvos do incêndio de abril de 2005.
(41) Seus escritores eram principalmente de integrantes das famílias da nobreza dos barões do café fluminenses. Diários sempre foram uma estranha febre na cabeça de Abayomi. Imersos em retratos psicológicos, espelhos ao inverso, nos quais pessoas se mostravam como eram de fato, por inteiro, onde não conseguiam enganar a si mesmas, pelo menos não o tempo todo. Desejos, frustrações, alegrias e tristezas. Tudo verbalizado ou apenas sugerido.
(42) Existiam, naquele setor, estantes imensas, ainda com vários dos mais inusitados relatos pessoais, que remontavam ao século XVII. Muitos foram perdidos no incêndio de abril de 2005, mas os que sobraram haviam sido transferidos para os arcazes do Setor de Manuscritos Raros, que aos poucos também vinham sendo recuperados, já que também sofrera diversas avarias.
(43) Verdadeiros retratos escritos de várias épocas, verdadeiras obras de arte, que de tão detalhados permitiriam uma reconstituição quase fiel daqueles dias, cenas, sentimentos, crônicas de suas respectivas épocas, desfilando relatos detalhados em vários idiomas, pelos dedos desses famosos e anônimos construtores da história brasileira. Assim, de tanto fuçar aqui e ali, em sua sede insaciável, incurável de saber, Abayomi começou a descobrir seu caminho, sua missão, e nada no mundo poderia existir de mais poético, filosófico e espantoso, porque todos nós somos constituídos de graça, livre-arbítrio e predestinação, a verdadeira santíssima trindade que habita o âmago de cada ser humano.
(44) Quase todo dia chegam à Biblioteca Nacional caixas e mais caixas de doações, acervos completos de coleções das mais variadas. Bibliotecas particulares imensas acabam sendo absorvidas. As obras duplicadas são redistribuídas a outras bibliotecas públicas. Às vezes chegam algumas raridades como, por exemplo, aquela em que apareceram páginas do manuscrito original de Triste Fim de Policarpo Quaresma, O Homem que Sabia Javanês e alguns fragmentos de Cemitério dos Vivos, todos de Lima Barreto, que inclusive foram desempacotados pelas próprias mãos de Abayomi… Agora não saem mais daqui de dentro… nunca mais… pois aqui é, sempre foi, e sempre será o seu lugar, caro Afonso Henriques…
(45) Um conjunto de mais de 40 caixas havia chegado naquela semana, vindo de um casarão do bairro da Tijuca. O dono do casarão, um escritor, desaparecera recentemente, e os seus sobrinhos (parece que não tinha herdeiros diretos), sem saber o que fazer com todo aquele acervo, resultado de mais de meio século de paixão pelas letras, relacionaram todos os livros, revistas e outros periódicos daquela biblioteca quase centenária (herança de pai para filho), quase 5 mil unidades, encaixotaram tudo e enviaram para o Setor de Intercâmbios e Doações da Biblioteca Nacional.
(46) Essa é uma forma de evitar que tantos documentos históricos, por desconhecimento e, até, certa dose de desinteresse nos processos de divisão de bens e espólios, acabem no lixo.
(47) Mas a história, como já dissera Stephen, em 16 de junho de 1904, é um pesadelo do qual estamos tentando acordar. Não é assim? Pois Abayomi vinha tendo verdadeiros pesadelos com aquelas caixas de livros e, principalmente, com as histórias que aqueles livros desejavam contar. As caixas caíram de pára-quedas em sua mesa e pareciam não querer mais sair de lá. Elas não falavam, mas queriam dar um aviso ou, como melhor Abayomi pressentia, antecipar o passado.
(48) Nelas, Abayomi encontrara alguns diários, livros e periódicos, vestígios e ecos do passado. Algumas das histórias lhe pareciam estranhamente familiares, aqueles retratos em palavras do dia-a-dia da sociedade carioca do final do século XIX, pelo século XX a dentro, aqueles segredos estavam, tanto tempo depois, sendo divididos com um visitante do futuro. Deles vinha uma voz, um pensamento talvez, que parecia insistir em indicar um caminho, Seja bem-vindo, aproxime-se, pegue uma cadeira, sente-se, abra um desses diários e faça com que todas essas coisas aconteçam novamente… Mas naquele momento, Abayomi ainda preferia mantê-los fechados… e ficar em silêncio…
(49) Às vezes, quando possível, Abayomi separava um ou outro livro para consultar nos horários vagos, ou mesmo depois do expediente, e quase sempre esses livros eram relacionados à História da Ciência, grandes inventores e inventos de todos os tempos, os brasileiros de preferência, entre os quais havia um interesse maior por
(50) Alberto Santos-Dumont. Em parte, era a influência das aulas do professor Garcia Henriques, titular da cadeira de – adivinhe? –, claro, História da Ciência, no IFCS, desde a época em que às assistia apenas como ouvinte.
(51) Garcia Henriques, considerado um dos mais importantes biógrafos vivos de Alberto Santos-Dumont, com vários livros e artigos publicados sobre o grande inventor e aeronauta, em revistas nacionais e internacionais (além do blog sobre história da aviação que mantinha com alguma regularidade na web, e algumas comunidades no Orkut), também percebia o grande interesse que Abayomi demonstrava no assunto e inclusive via nele a possibilidade de que se tornasse, um dia, um grande pesquisador. Mas Henriques, como todo historiador que vê nascer, a cada dia, a sede incessante da descoberta dos novos conhecimentos, não restringia suas pesquisas apenas ao que havia vivido e experimentado o mineiro Alberto Santos-Dumont, avançava também pesquisando as experiências precursoras de outros gênios inventivos brasileiros da tecnologia aeronáutica, como o santista Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o paraense Julio César Ribeiro de Souza e o potiguar Augusto Severo.
(52) Abayomi, por sua vez, também se sentia muito ligado ao assunto. Não sabia como havia nascido aquele interesse. Desconfiava que talvez pudesse ser por causa da própria tragédia familiar. Ele sabia que a vida às vezes lhe apresentava estranhas coincidências.
(53) Por isso tudo, grande foi sua surpresa quando, naquela tarde de 16 de outubro de 2006, de repente, ele sequer percebeu como, Ariadne Bosch apareceu à frente de sua mesa, com um estranho sorriso nos lábios e, nas mãos, um pequeno objeto: um livro? Um caderno talvez, bastante antigo, de capa clara, que logo de cara lhe chamou a atenção.
(54) — Abayomi, diga-me uma coisa, você continua suas pesquisas sobre Santos-Dumont?, perguntou suavemente, como quem, ao menos aparentemente, não quisesse nada demais.
(55) — Sim, professora, quer dizer, Ariadne. Sempre me esqueço que você não gosta que lhe chame assim aqui, sorriu meio sem jeito (certamente não notou a cara de desaprovação enciumada de Carolina, que acompanhava, não muito de longe, o diálogo).
(56) — Sem problemas, Francisco, por hoje passa…, Ariadne retribuiu, brincando.
(57) — Sim, continuo minhas pesquisas, mas sei que ainda tenho muito chão a percorrer, pois pretendo convencer o coordenador do curso a aceitar minha monografia sobre História da Ciência. Estou procurando apresentar um projeto irrefutável, pois sei que ainda existem restrições a monografias sobre esse tema. Talvez o achem mais apropriado às disciplinas da área tecnológica, sei lá… Mas por que você me pergunta isso?
(58) — Bem, acharam esse diário perdido no nosso depósito, aquele que fica aqui nesse mesmo prédio. Naquela sala no fundo do corredor do subsolo… e continuou, com certo ar de mistério, e pelo jeito estava escondido por lá há muito tempo. Estava dentro de um dos cofres antigos, um dos que provavelmente não era consultado há muitos anos mesmo. Um daqueles que não foram atingidos pelo incêndio. Parece até que por causa disso lembraram dele. Como aquela área é certamente a menos visitada aqui na BN, esse cofre específico tinha a aparência de não ter sido aberto pelo menos nos últimos 70 anos…
(59) Abayomi já estava completamente curioso em saber do que se tratava e o que teria que ver com suas pesquisas sobre Santos-Dumont. Mas Ariadne não parava sequer para respirar.
(56) — Consultamos os registros e esse diário nunca esteve cadastrado aqui com a gente, logo, nunca esteve na Divisão de Manuscritos, também. Ou seja, não tem um passado registrado aqui na BN. Nós até já estamos acostumados com o desaparecimento temporário de algumas obras do acervo que às vezes são colocadas fora do lugar, mas esse aqui nunca foi cadastrado. Quem o colocou lá sem dúvida alguma queria dificultar o seu descobrimento. E pelo jeito sabia o que estava fazendo. Pedi ao pessoal da Divisão de Informação Documental para fazer um levantamento, e nada foi encontrado. Pelas datas, provavelmente foi escrito por volta da década de 1910. Quando supostamente foi colocado lá? Sinceramente, não temos a menor idéia.
(60) Abayomi coçava o queixo com aquela cara de quem ainda não conseguira entender aonde Ariadne queria chegar com aquela conversa.
(61) — Certo, Ariadne. Mas o que eu tenho que ver com isso? Já estou começando a ficar preocupado.
(62) — Calma, garoto, que eu chego lá… pensando melhor, acho melhor você ver com seus próprios olhos…
(63) Ariadne pensou um pouco e resolveu abreviar a ansiedade de Abayomi. Puxou o pequeno caderno amarelo e o mostrou. Silêncio… Um longo silêncio… Abayomi ficou mudo por alguns instantes, analisando o material, mas estático, como alguém que fora hipnotizado. Parecia não acreditar no que seus próprios olhos enxergavam. Chegou a coçá-los mais uma vez. Ficou literalmente sem palavras quando leu o que estava escrito na capa daquela encadernação de algibeira em couro de cabra, com detalhes em dourado… Sim, não havia dúvidas…
(64) “SANTOS-DUMONT NÚMERO 8”
(65) — Ariadne, o que é isso?! Alguma brincadeira de mau gosto?
(66) — Acho que não, Abayomi.
(67) — Há pouco tempo estivemos conversando, acho que há um mês e meio, lá no IFCS, sobre os inventos de Santos-Dumont, não foi? Você lembra do que lhe contei sobre a seqüência dos seus inventos aeronáuticos? Ele criava e nomeava suas aeronaves seqüencialmente, do Santos-Dumont Número 1 ao Número 22. A única e incômoda lacuna encontrara-se justamente entre os números 7 e 9. Teoricamente, nunca existiu um Santos-Dumont Número 8.
(68) Ariadne aquiesceu balançando levemente a cabeça, e fazendo um sinal de positivo, comentou: — Exatamente, Abayomi. Lembro-me muito bem da sua brilhante aula sobre os inventos de Santos-Dumont. É por isso que você está aqui com a gente, lembra? Principalmente pelo que você havia me contado com relação às suas pesquisas, achei muito interessante tê-lo aqui conosco, já que você é um pesquisador nato. Eu também achei esse diário muito estranho e por isso resolvi conversar com você. Foi descoberto na semana passada. Precisamos saber do que se trata e decidir o que fazer.
(69) — Todos os biógrafos de Santos-Dumont afirmam que nunca existiu um projeto Santos-Dumont Número 8 disse, em tom grave, na verdade atribuem sua falta a uma espécie de superstição que ele passou a ter depois de um quase trágico acidente em 8 de agosto de 1901. Eu também ficaria um pouco com o pé atrás se isso tivesse acontecido comigo. Mas, falando sério, Ariadne, eu mesmo nunca acreditei muito nisso.
(70) Sabemos que pessoas competentes também podem se enganar quando se apegam a um julgamento sumário. Não posso negar que várias vezes pensei se não existiriam vestígios que permitissem provar que o SD8 tenha existido. Mas como Alberto queimou a maioria de seus diários em 1914, ficamos com essa imensa lacuna histórica.
(71) Agora você me aparece com um diário com esse título? Tem certeza de que isso não é brincadeira de alguém aqui do Setor de Intercâmbio? Digo isso porque já comentei com algumas pessoas aqui do setor sobre minhas teorias…
(72) — Pode acreditar. Não é brincadeira. Ariadne tinha muita certeza do que estava falando, é um diário, e original. Já confirmamos com o Sílvio Marins, nosso perito em grafoscopia, que checou e constatou que a escrita confere com a do próprio Alberto Santos-Dumont. Sem dúvida, foi escrito por Alberto. O mais importante, porém, é que as coisas não param por aí. Existem algumas coisas ainda mais estranhas… Abayomi não podia acreditar que ainda haveria mais coisas estranhas. Ora, só aquilo que escutara e vira já era fantástico. Mas ainda teria mais… Como assim, mais estranhas?
(73) Abayomi tentava imaginar o que de mais estranho ainda poderia existir naquele diário.
(74) — Não sei bem ainda, mas… Pode parecer tolice, bem… como posso dizer…
(75) — Diga Ariadne, vamos! Com atenção redobrada, Abayomi escutou.
(76) — Tudo bem, Abayomi. Eu posso e devo contar para você. É que ainda preciso checar… sabe como sou chata com essas coisas… Ariadne continuava, visivelmente constrangida — Existe no diário uma referência ao meu bisavô, General Vaissière, lembra que conversamos sobre ele outro dia? Eu mesma já havia encontrado uma referência a ele naquela carta de Marcel Proust à Madame Straus, que encontramos no mês passado na Divisão de Manuscritos. Aquela carta que te mostrei sobre o observatório de Santos-Dumont em Bénerville-sur-mer…
(77) “Outro dia, Madame Strauss, eu li que o General Vaissière requisitou permissão para ocupar o observatório de Santos-Dumont em Bénerville. Talvez isso mostre (mas eu não sei absolutamente nada sobre isso) que os navios alemães estejam se aventurando por lá…” (Marcel Proust; Carta a Madame Straus.)
(78) — Sim, eu me lembro, Ariadne. E como! Inclusive, ainda estou esperando a cópia dessa carta que você me prometeu…
(79) Aquela carta que, de certa forma, motivara Ariadne a convidar Abayomi para estagiar na BN. Uma carta encontrada por acaso na Divisão de Manuscritos em condições tão estranhas quanto o diário tema de nossa cena atual. Abayomi começava a desconfiar do que dizia Carolina. Será que abrir o livro começava a interferir no ambiente ao seu redor, em sua realidade objetiva?
(80) — Claro, Abayomi, entendi seu recado. Desculpe-me, mas pelo volume de trabalho que temos tido nos últimos dias, acabei esquecendo…, desculpou-se, abaixando os olhos, um pouco constrangida.
(81) — Tudo bem, profess… quer dizer, Ariadne. Eu estava apenas brincando. Continue, por favor.
(82) — Certo Abayomi, voltando ao diário, você não acha isso uma coincidência e tanto? Sim. Abayomi começava a achar que podia ser mais do que apenas coincidência.
(83) — Mas, não termina aí. Muito pelo contrário…
(84) — Como assim? Posso dar uma olhada?
(85) — Minha intenção é exatamente esta. Veja o que você consegue descobrir. Qualquer dúvida, ou caso precise de alguma ajuda, ou interagir com algum setor da Biblioteca, me avise. Mas tenho certeza de que, sendo você nosso especialista em Santos-Dumont, não haverá outro na nossa equipe mais gabaritado para desvendar esse mistério…, disse, sorrindo, e com uma certeza inabalável. Dra. Ariadne tinha o dom de reconhecer talentos e assim enxergava Francisco Abayomi.
(86) — Certo, Ariadne. Respondeu, pausadamente, um meditativo Abayomi, enquanto olhava para o misterioso diário em suas mãos. — Mas, Ariadne, vocês já investigaram alguma coisa sobre o que está escrito aqui?
(87) — Claro que nós investigamos, Francisco… Ariadne, com um ar de displicência forçada, fulminou… — mas, não encontramos nada de mais… Quer dizer, quase nada de mais…
(88) — Como assim nada de mais?
(89) — Bem, pelo que está escrito aí, Abayomi, o Santos-Dumont Número 8 foi o primeiro aeroplano de Santos-Dumont…
(90) — Como?!
(91) — Sim, exatamente o que você escutou e entendeu… foi projetado, construído e testado com sucesso por volta de 1902…
(92) — Mas isso é fantástico! Abayomi entendia o quanto aquela descoberta era importante e não conseguia esconder sua empolgação.
(93) — Sem dúvida, Abayomi, sem dúvida… Além disso tudo, é provável, ou pelo menos existem estes indícios nas informações que coletamos do diário, que Santos-Dumont tenha tido seu projeto usurpado por uns americanos…
(94) — O quê??!! Usurpado por uns americanos?! Abayomi não pôde evitar o susto. Sua cara de estupefação era mais eloqüente do que mil palavras.
(95) — Entende agora porque estamos bastante interessados em averiguar esse diário?
(96) — Mas, Ariadne! Isso é fantástico! Fantástico mesmo! Nossa… Estamos prestes a completar os 100 anos do primeiro vôo do 14-Bis! Isso é fantástico! Abayomi estava visivelmente excitado com as possibilidades, mas também presumia o que lhe esperava…
(97) — Quando você conseguir me explicar o que isso tudo aí significa, Abayomi, prosseguiremos o processo de catalogação, caso seja realmente confirmado como um documento histórico. Vai diretamente para o Setor de Obras Raras. E, depois, com certeza teremos de divulgar na imprensa. O que acha? Não seria pertinente? Abayomi ainda não conseguira se refazer do susto.
(98) — Sem dúvida, Ariadne, tentava responder, trata-se de uma descoberta importantíssima. Um registro histórico ímpar…
(99) — Abayomi, faça um ótimo trabalho. É o mínimo que espero de você.
(100) — Pode deixar comigo, Ariadne. É só isso?
(101) — Sim, Francisco, é só isso. Por quê?
(102) — Eu preciso sair agora, pois hoje vou ter prova no primeiro tempo… Parece até brincadeira: Fenomenologia Histórica. Pode?
(103) — Tudo bem, está dispensado. Boa prova, respondeu, já dando as costas e dirigindo-se à sua sala.
(104) — Seria possível?…
(105) Ariadne voltou-se para Abayomi…
(106) — Sim, Francisco? Mais alguma coisa?
(107) — É que… Eu estava pensando aqui comigo, seria possível eu levar esse trabalho para casa?, perguntou com aquele jeito meio maroto, meio tímido.
(108) — Claro, Abayomi. Sei que você tratará este documento como uma jóia, respondeu, deixando então escapar um sorriso condescendente, mas fez questão de frisar:
(109) — Abayomi, veja bem, você sabe que estou abrindo uma exceção. Vou fazê-lo porque sei que, do jeito que você é curioso, sequer vai conseguir dormir esta noite. Não é?
(110) — É bem provável…
(111) — Tudo bem, pode levar o diário com você. Mas, lembre-se, tenha muito cuidado. Ainda é segredo de Estado, em todos os sentidos. Ok?
(112) — Tudo bem, Ariadne. Pode ficar tranqüila. Tchau!
(113) — Até amanhã!
(114) Abayomi colocou o diário na mochila e saiu correndo, o que fez aparecer um agradável sorriso nos lábios de Ariadne, que também balançava condescendentemente a cabeça de um lado para o outro.
(115) Abayomi, àquela hora, já estava atrasado para a primeira aula do dia, que era a tal prova de Fenomenologia Histórica. Atravessou a Avenida Rio Branco voando e desceu, esbaforido, as escadarias da Estação Cinelândia do Metrô, bem à frente do belo prédio da Assembléia Legislativa, o Palácio Pedro Ernesto. Passou como um raio pela roleta e pegou o trem no sentido Zona Norte, em direção à Praça Saens Peña… Boa noite. Aqui é o condutor José Wilson. O Metrô Rio agradece a preferência e deseja a todos uma boa viagem… O entusiasmo e a vontade de começar logo aquela leitura mal o deixavam escutar o anúncio da chegada da composição às estações… Próxima estação, Uruguaiana. Desembarque pelo lado direito… Next stop, Uruguaiana station… Bem, chegara ao seu primeiro destino e agora era preciso concentrar-se na prova… Boa sorte, então, Abayomi!
(116) Naquela noite, ao chegar em casa, extenuado, ainda encontraria ânimo para pegar o diário na mochila preta, pois Abayomi, que tinha especial predileção pela cor preta, ou melhor, pela ausência de cores que o preto representava, era como uma espécie de “Cézanne pós-modernista”, que jamais aceitaria o veto a essa cor, ou não cor, mesmo ignorado, hostilizado ou satirizado, já que dela descobrira uma forma meio esquisita, concordo, de colher o que do passado se misturava ao seu presente e futuro e todos os dias uma peça de seu vestuário tinha que representar aquela descoberta…
(117) Jogou a mochila num canto qualquer e, sem evitar a imensa curiosidade, Abayomi respirou fundo. Seu pensamento era eloqüente, apesar de não entender bem de onde eles vinham e o motivo de virem… A vida é mesmo um jogo de cartas marcadas. Quem são os jogadores? Quais são as regras? Não ter regras é a regra. Um jogo de forca na casa do enforcado. A lógica natural de todas as coisas…
(118) Abayomi não conseguia disfarçar a ansiedade. Olhou fixamente por alguns minutos a capa daquele diário sem imaginar (e se imaginasse, não acreditaria) o que estava prestes a conhecer. Talvez ele até desistisse (sinceramente, duvido) se tivesse, naquele momento, o dom de adivinhar o futuro. Um pensamento que provavelmente o faria morrer de rir agora: Surpreender-se com uma paisagem que ele mesmo compusera… O destino tem realmente um senso de humor mordaz. Mas, naquele exato momento em que Abayomi abria a capa daquele diário e preparava-se para um mergulho, ainda existia um longo caminho a ser caminhado. O que de mais secreto e esquisito poderia estar escondido nas folhas de um diário tão inusitado?
(119) Toda aquela história, por si só, já representava uma espécie de exaltação ao desconhecido, que ele confessava buscar como uma forma de fuga dele mesmo. As sombras esfumaçadas da história começariam a se dissipar naquele momento. Mas um preço deveria ser pago. Um preço talvez muito caro. O preço da, muitas vezes temida por Abayomi, autodescoberta, do assustador autoconhecimento.
(120) Então, naquele momento, aparentemente comum, mas crucial, como tantos outros em nossas vidas, ele respirou fundo, mais uma vez, abriu aquela capa com o mais excessivo cuidado e começou a ler o diário; sonolentamente, mas começou a ler o diário.
(121) Aquelas palavras adquiriam corpo e caráter e, como cores nas impressões, improvisações e composições de uma tela abstrata de Wassily Kandinsky, pintavam figuras, vagamente reconhecíveis pelos olhos esgotados de Abayomi, as quais ainda insistiam em passear pelo mistério que o número 8 representaria, subjetivamente,
(122) como uma improvisação estranha e alternativa de um número 14, de um número “14-Bis”.
(123) “Até agora eu havia me calado, entretanto, não tenho mais escolhas. Preciso confessar a todos: o primeiro foi o 8, o Santos-Dumont Número 8 (…)”
(124) E assim Abayomi adormeceu… Adormeceu e sonhou…













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Apollinaire Mont Thabor
Ariadne Bosch
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Francisco Abayomi
Garcia Henriques
Mathias Violante
Ray Dobbin
SD8
Souza-Soares
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